Edilene Matos
Universidade Federal da Bahia - UFBA
EUGÊNIA
Myriam Fraga
Não te darei
Amor,
Profundas (m)águas.
Mas indomada
Paixão,
Oceano de lavas.
Não te direi
Sou tua,
Porque minto.
Só em mim,
Pressinto,
O êxtase de pisar
No risco que divide.
Tumulto é minha voz,
Cintilando, nos palcos.
- Minha voz, que é tua voz.
Cicuta é meu veneno,
Meu perfume, absinto.
Adeus, para sempre,
Adeus.
No cálice a última gota.
O mais é precipício.
Optei, neste texto, por apontar a trajetória de uma mulher muito injustiçada pelos biógrafos e que precisa ser revisitada. Refiro-me à poeta e atriz portuguesa Eugênia Infante da Câmara.
“Ela era lusa e linda[1]”, assim escreveu, uma vez, um poeta e nasceu a 9 de abril de 1837, num domingo de primavera, numa casa em que as boninas se espalhavam em jardim, naquela Lisboa em que as ruas, “ao anoitecer,/ há tal soturnidade, há tal melancolia/ que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia/ despertam-(me) um desejo absurdo de sofrer[2]”, cidade que tem aos pés a majestade do Tejo, filha de Joaquim Infante da Câmara e Ludovina Infante da Câmara, descendentes de nobres famílias.
A menina Eugênia revelou, desde cedo, um talento incomum e declamava, com graça e perfeição, poetas franceses, espanhóis e portugueses. Recebera uma esmerada educação social e literária, estando, apta, portanto, a ensinar essas lições aos admiradores e discípulos, sobretudo no Brasil, país que adotará como sua segunda pátria.
Dotada de forte personalidade, dirigiu-se, desacompanhada, em 1852, então com apenas quinze anos, ao Teatro do Ginásio e fez um teste diante do empresário Santos Pitorra. O ousado gesto ao lado do seu talento fizeram-lhe conquistar o lugar de atriz. Daí por diante, não mais parou a carreira artística, desenvolvida ao lado da de poeta e tradutora.
Neste mesmo ano de 1852, Eugênia Câmara estréia em público com uma récita contendo uma comédia em três atos “Eram Elas” e uma farsa em um ato “A parteira e o dentista”.
De Lisboa viaja para o Porto. É lá que publica o seu primeiro livro de versos, “Esboços Poéticos”, de 102 páginas, edição da Tipografia de Sebastião José Pereira e que tive a oportunidade de tocar e ler na Biblioteca Nacional de Lisboa. São poemas brotados do coração, revelando uma rica sensibilidade, como também lucidez no tocante à profissão de atriz, norteada por exigências, máscaras, sacrifício, dedicação e talento.
Escritores e jornalistas, motivados pela performance da atriz, dedicam-lhe crônicas, a exemplo de Camilo Castelo Branco que, na sua coluna para o jornal “O Nacional”, a chama de tradutora exímia e poetisa de bonitos versos, além de atriz irrequieta, apropriada para papéis de paixão e travessuras.
Também, Machado de Assis, após ter assistido a atriz na peça Abel e Caim, de Antonio Mendes Leal, no papel da Baronesa de Almourol, escreve loas ao seu desempenho, na Revista “O Espelho”, de 1859.
Contratada pelo Teatro Ginásio Dramático do Rio de Janeiro, chega Eugênia Câmara ao Brasil, em 1859, de onde nunca mais sairá.
Percorre várias cidades brasileiras e, em 1864, está em Fortaleza. Aí publica, pela Tipografia Constitucional, o livro “Segredos D’Alma”, em cuja capa a lira e a trompa se interseccionam entre louros. Este livro reuniu os poemas de “Esboços Poéticos”, acrescentando-lhe 19 poesias, algumas de sua própria lavra e outras que foram feitas em sua homenagem, entre 1860-1864, destacando-se as de Fagundes Varela, Vitoriano Palhares, Emílio Zaluar e Antonio Manuel dos Reis. Na própria capa do livro se lê: “nova edicção, seguida de uma collecção de várias poesias dedicadas à mesma actriz durante as suas viagens no Império do Brasil”.
Este livro teve uma segunda edição, em 1989, pela Editora Pannartz, São Paulo, com apresentação de Norlândio Meirelles – que enriqueceu esta nova edição com poesias da autora que encontrou em jornais de época -, tendo na capa um retrato de Eugênia num desenho a bico-de-pena por Biaggio Mazzeo.
Entro, agora, num espaço fluido e consigo ouvir os sons da polca “Eugênia”, do músico alagoano Marcelino Cleto Ribeiro, e o xote “Eugênia”, de José Vicente da Costa Bastos. Embalada por estas músicas, componho esta singular personagem no meu imaginário.
Lá está ela, nem bonita nem feia, alta e fausse maigre, com movimentos harmoniosos nas ancas, proporcionando-lhe um andar de equilíbrio perfeito, uma grande inquietação no olhar, olhos suplicantes de paixão e glória, olhos que seduzem e magnetizam. E ouço a sua voz doce, com acentuado sotaque português, dividindo serenamente as sílabas roucas das palavras. Quer as luzes da ribalta, quer os aplausos dos fãs, mas quer, também, a suave harmonia de um poema bem feito, um peito amigo para sufocar as mágoas e decepções.
Mas esta mulher alta, clara, de olhos rasgados estremeceu o sangue do poeta Castro Alves, palpitava em seus nervos, chorava em seu coração. As suas vidas se cruzaram e não é possível se falar em um sem tocar no outro:
Castro Alves teria visto Eugênia Câmara pela primeira vez no Recife, no palco do Teatro Santa Isabel. Era então um jovem de dezoito anos incompletos, de gestos ousados e olhar sedutor, uma chama de brilho que ilumina e ofusca. Este rapaz, recém-saído da adolescência, de acentuada beleza física, tremia ao rugir da seda da saia rodada de Eugênia, quando esta saía do teatro ou transitava pelos espaços do Santa Isabel, onde, em um dos seus salões, se reunia a comissão de redação do Grêmio Jurídico da Faculdade de Direito, de que o poeta fazia parte. As circunstâncias dessas reuniões tornaram possíveis amiúdes encontros entre os dois. E floresceu uma grande paixão entre um poeta do sertão baiano, ainda muito novo, e uma mulher, já iniciada na maternidade (tivera uma filha), de alvos seios à mostra, admirada e invejada, voluntariosa e altiva, dez anos mais velha e vinda d’além mar...
Uma ligação amorosa e pedagógica, uma paixão entre dois temperamentos ardentes e voluptuosos. A atriz teria à mão, a seus pés e no seu leito o seu exclusivo trovador, que a defenderia no teatro, na poesia e nos jornais. Para ela, faria belos poemas, para ela, escreveria Gonzaga ou A Revolução de Minas, - que foi levado à cena pela primeira vez, no dia sete de setembro de 1867, no Teatro São João, na Bahia - com o objetivo de vê-la brilhar no papel de Marília; o autor ao lado da atriz.
“Astro rutilante do céu da cena com o seu satélite”, assim A Bahia Ilustrada, de 23 de junho de 1867, anunciava a chegada do casal, que se hospedou no Hotel Figueiredo e não no Solar da Boa Vista, residência da família do poeta, como pretendem alguns biógrafos.
Vaidosa, Eugênia, de braços dados com o seu poeta, percorria as ruas da Bahia e subia e descia a Ladeira da Conceição, deslumbrada com aquele espetáculo da natureza – a baía se espraiando sobre um golfo do mais nítido azul. Ali, no alto da Praça, chorou, emocionada, ao ver o seu menino ovacionado e carregado pelo povo da terra.
Mas, a vida de andarilho do artista não permite assentamento. E lá se vão os dois para São Paulo cumprir novos compromissos profissionais, passando alguns dias pelo Rio de Janeiro. Num ato de coragem e amor, Eugênia tudo abandonara para seguir, por determinado momento, o seu poeta. Vendera jóias, peliças valiosas e outros bens, afinal Castro Alves, poeta e estudante, vivia de mesada enviada pela família.
Também empresária, Eugênia criara a sua própria companhia teatral e precisava arregaçar as mangas. Fazia sucesso em São Paulo, mas começaram os desentendimentos do casal, ora por ciúmes (de um e outro lado), ora por diferentes perspectivas de vida. Os dois, astros brilhantes, tinham adoradores. Um era o poeta e o orador da Academia do Largo do São Francisco. A outra, atriz aplaudida nos palcos. Mas o amor não acabara, e Eugênia visitou o seu poeta quando foi acidentado com um tiro no pé. Ela queria, pois, uma vida segura que ele não podia dar, sonhador que era de motivadas utopias!
Eugênia Câmara voltou para o Rio de Janeiro, onde se casou, dois anos após a morte de Castro Alves, com o regente da orquestra da Fênix Dramática, Antonio de Assis Osternold. Morreu no Rio de Janeiro, em maio de 1874, vitimada por uma encefalite e foi sepultada no Cemitério de São João Batista.
Durante mais de vinte anos, Eugênia atuou como atriz de teatro, interpretando papéis masculinos, femininos e infantis, cantando, declamando e tocando peças musicais.
Musa maior de Castro Alves, tradutora de importantes peças, poeta, atriz que “bouleversou” o teatro e a sociedade conservadora dos meados do século passado, mulher lúcida e revolucionária, é, quase sempre, tratada pelos historiadores como uma mulher vulgaríssima, uma aventureira que desestruturou o poeta e causou-lhe definitivo sofrimento. Suposições de mentes preconceituosas, comentários malévolos e, por isso, descartáveis.
O palco, espaço da poética e da performance, se confunde com a vida: eis uma verdade que se inscreve ao longo de toda a trajetória de Eugênia Câmara. Em decorrência de tal fusão/confusão, a atriz-poeta se insinua em seus poemas, ao mesmo tempo que se projeta para além e acima deles.
A linguagem do corpo foi usada por essa atriz/poeta como arma de grande eficácia para provocar emoções, fascinar e comover o público, para dominar e controlar pelo poder hipnótico do verbo. Suas apresentações eram valorizadas mais ainda por sua habilidade mímica, pela gestualidade estudada, pela expressão corporal exaustivamente ensaiada.
Toda obra de arte, como é sabido, mesmo quando assume a história como um de seus temas, acaba por pairar acima da história e da vida humana, por força de sua índole ficcionalizante. O poeta romântico não foge à regra; arrogante como é, revoluciona e transforma a realidade, ao transformar a vida em poesia, a história em ficção. No romantismo, a realidade é estranhada. Tal processo de estranhamento, porém, tem uma marca própria que se pode identificar na vocação individualista de todo autor romântico – e é esse individualismo o responsável por um movimento redutor do todo à parte, que faz com que a arte romântica adquira uma dimensão que se poderia chamar de realismo individualista, já que o real nela é reduzido às dimensões do indivíduo. Tal operação redutora do real, porém, gera, em consequência, uma recriação ou redimensionamento da realidade.
Na poética de Eugênia, uma lâmina de prata muito fina, um punhal afiado, executa essa tarefa de redução ou ampliação da realidade, num movimento de vai-e-vem. E a lâmina cortante e sutil do verbo, manejada pelas hábeis mãos e/ou pela voz dessa atriz/poeta, faz sua obra escapar da história e projetar-se no futuro.
Ao romper as fronteiras ou reduzir as limitações do idioma, da sincronia, da individualidade, o poeta tenta alcançar o ilimitado, através de uma peregrinação incessante pelo ato criativo. No grande conflito instalado no espaço sem fronteiras do fazer poético, onde nem se esconde a loucura, nem se a exerce totalmente, o poeta define-se como um mago que, através da palavra, transforma a realidade e seu próprio ser, auto-referenciando-se e engrandecendo-se. Assim aconteceu com Eugênia Câmara.
Em Eugênia, não pode haver apaziguamento; é a pura energia da sedução que se exprime, sedução que implica até a doação do seu corpo à energia criadora da encenação, da escritura, daí o corpo no corpus. A obra é também um corpo e não uma abstração da realidade. E o corpo da obra poético-performática de Eugênia é igualmente sedutor ao corpo mesmo dessa poeta/atriz, instaurando um novo espaço de sedução:
No ADEUS, de Eugênia, um canto de amor:
Eugênia parece ter compreendido o gesto final de reconciliação, já num plano superior de sentimentos, ao responder ao adeus extremo do poeta: Não quero mais teu amor!Porém minh’alma/ Aqui, além, mais longe, é sempre tua.
Sabemos que o Adeus de Castro Alves apresenta uma admirável síntese do tema romântico do amor como sentimento vital, bem supremo cuja ausência torna o viver impossível. Amar=Viver. A negação desse sentimento equivale à negação da vida.
O pano desce. Eugênia pensa no seu sedutor poeta montado no alazão Richelieu, vestindo a capa espanhola preta, cabelos ao vento, cavalgando mar e terra, e vê, orgulhosa, a pata do cavalo pousar na estrela de mais alto brilho. Luz e trevas. Fim da peça. E a seguir, só a fabulação do silêncio.
Ou a voz de Amália Rodrigues cantando o Fado Eugênia Câmara, evocação de um amor infeliz, tema tão adequado ao ritmo do fado e à voz de Amália[4].
Referências bibliográficas
ALVES, Castro.Obra Poética. Rio de Janeiro: Aguillar, 1966.
CÂMARA, Eugênia. Segredos D’Alma. Fortaleza: Tipografia Constitucional, 1864.
FRAGA, Myriam. Eugênia. In: Poesia Reunida. Salvador: Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2008.
LIMA, Jorge de. Castro Alves – Vidinha. Rio de Janeiro: Cadernos Mira Coeli, 1952.
MASCARENHAS, Maria da Graça (org.). Castro Alves. São Paulo: Nova Terra Comunicações/Odebrecht, 1997.
MATOS, Edilene. Castro Alves – imagens fragmentadas de um mito. São Paulo: EDUC/FAPESP, 2001.
SOUZA Bastos. Eugênia Câmara. Revista Contraponto, n. 12. Recife, 1950.
Norlandio M. de Almeida. Eugênia Câmara - Musa total in Jornal A Tarde, 15/03/97
http://www.revista.agulha.nom.br/calves26.html
VERDE, Cesário. O sentimento dum ocidental. In: Poesia Completa. Lisboa: D. Quixote, 2001, p.123
Legendas das ilustrações :
Eugênia da Câmara. Foto reproduzida a partir de documentos de Mário Cravo Neto, in Mastarenhas, 1997.
Auto-retratos de Castro Alves. Foto reproduzida a partir do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. in MATOS, 2001.
Teatro São João da Bahia. Foto reproduzida a partir de documentos de Mário Cravo Neto, in Mastarenhas, 1997.
[1] Trata-se do primeiro verso da 12ª estrofe do Poema “Castro Alves – Vidinha”, de Jorge de Lima: Ela era lusa e linda/ele Castro era baiano/ mas o amor que o dominava/ia além do amor humano,/amor pela liberdade,/forte amor, amor tirano.
[2] Excerto de “O sentimento dum ocidental”, de Cesário Verde.
[3] 6ª estrofe do poema “O Vôo do Gênio”, de Castro Alves, datado de maio de 1866 e incluído nas “Espumas Flutuantes”. In: ALVES, Castro. Obra Completa. Rio, Aguilar, 1966, 2ª edição do volume único, p. 110.
[4] Amália Rodrigues fez o papel de Eugênia Câmara no filme O Vendaval Maravilhoso, de Leitão de Barros, em 1947.
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Pour citer cet article:
MATOS, Edilene. «Ela era Lusa e Linda... [Eugênia Infante da Câmara, uma atriz portuguesa no Brasil]», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°8, printemps-été 2011, [En ligne] URL: www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504.
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