A terceira travessia
Elizabeth Hazin
Universidade de Brasília
I
A gente não sabe. A gente sabe.
(GSV, p.105)
Como clareia: é aos golpes, no céu, a escuridão puxada aos movimentos (GSV, p.160).
Ideiazinha. Só um começo. Aos pouquinhos a gente abre os olhos (GSV, p.119).
O senhor espere o meu contado. Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro (GSV, p. 147).
Estas três citações – de um paralelismo evidente – não foram colhidas ao acaso. Representam os três diferentes níveis de que Guimarães Rosa se serve, para jogar com o grande binômio imagético de seu livro: o claro-escuro.
Há em Grande sertão: veredas dois momentos bem definidos: o do presente – o agora da narração de Riobaldo – e o passado – assunto mesmo da narração. Estes dois momentos estão perfeitamente caracterizados pela distinção que Riobaldo faz entre ambos, à medida que vai narrando sua vida que não chegou a entender:
Hoje sei (GSV, p.386).
Mas, naquele tempo, eu não sabia (GSV, p. 229).
Hoje, eu sei, pois sei, porque (GSV, p. 379).
O que não entendo hoje, naquele tempo não sabia (GSV, p. 369).
Hoje, eu sei; isto é: padeci (GSV, p.381).
Ao que naquele tempo, eu não sabia pensar com poder (GSV, p. 262).
O saber e o não-saber demarcam a diferença. No não-saber está o perigo de viver: “Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe” (GSV, p.443). O “não é?” intercalado na frase é muito sugestivo. Demonstra que o próprio Riobaldo ainda não tem certeza das coisas, pois sempre existe algo a ser descoberto. Muito coerente com o que ele diz logo a seguir: “Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo” (GSV, p.443). Um aprendizado que só termina com a morte, momento supremo, “que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas” (Rosa, 1968: 85), como, aliás, está expresso pelo próprio autor em discurso de posse, na Academia, ao referir-se ao seu antecessor, João Neves da Fontoura. E prossegue: “Morreu com modéstia. Se passou para o lado claro fora e acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias” (Id., ibid. grifo meu). A morte é, assim, a hora da revelação, do saber. “Diadorim – em que era que ele devia de estar pensando?; é o que eu não soube, não sei, à minha morte esta pergunta faço...(GSV, p. 437).
O que o Riobaldo relata ao seu interlocutor é, portanto, a travessia por ele empreendida, de um momento para o outro, ou seja, a passagem da ignorância para a lucidez – uma verdadeira aprendizagem da liberdade, liberdade que tem, para Riobaldo, conotação de virtude. Ser livre é agir com clarividência, ser dono de suas próprias ações.
Hoje, que penso, de todas as pessoas Sô Candelário é o que mais entendo. (...) Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo (GSV, p.186).
A voz do Hermógenes, dando ordens de guerra – ficava clara e correta. (...) Ao menos ele sabia aonde ia levar a gente (GSV, p.154).
Essa, a grande angústia existencial de Riobaldo: ser ele próprio, viver a verdadeira vida que lhe havia sido destinada:
Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo! (GSV, p.318).
Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre eu tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. (GSV, p.366)
Mas liberdade – aposto – ainda é ó alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro de grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina: o beco para a liberdade se fazer. (GSV, p.233).
Impossível não citar o texto. As frases estão de tal modo encadeadas umas às outras que, naturalmente, vou reordenando o texto, numa espécie de pretensão absurda de dar às peças do puzzle outros encaixes.
Como citar uma frase do último trecho – “Tem uma verdade que se carece de aprender” – sem lembrar do dito do Menino, durante a travessia do São Francisco: “Carece de ter coragem, carece de ter muita coragem” (GSV, p.85)? E aí:
Vau do mundo é a coragem (GSV, p.232)
O vau do mundo é a alegria (GSV, p.232)
As duas qualidades – a alegria e a coragem – estão associadas à concepção que Riobaldo se faz de Deus: “Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem” (GSV, p.237). Atravessar, portanto, significa perder o medo e aprender a alegria.
Mudei meu coração de posto. E a viagem em nossa noite seguia. Purguei a passagem do medo: grande vão eu atravessava. A tristeza (GSV, p.118, grifo meu).
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é a coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria e ainda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim, de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia (GSV, p.241, grifo meu).
São esses dois momentos – o do saber e o do não-saber – que se encontram metaforizados, no livro, pela dialética claro-escuro. Mas vejamos como Guimarães Rosa constrói o seu texto, dentro dessa perspectiva. Há em Grande sertão: veredas três níveis de utilização dessa metáfora, os quais denominarei: 1) o nível da literalidade; 2) o da metaforização propriamente dita e 3) o da narratividade. É no primeiro nível – o da literalidade -, que se encontram as muitas descrições da natureza, em seu movimento incessante dos dias e das noites:
O dia vindo depois da noite – esse o motivo dos passarinhos... (GSV, p.370). Vencemos uma grande noite e demos lá no luzir d’alva (GSV, p.389).
Até que, no mesmo padrão de lugar, sem mudança nenhuma, nenhuma árvore nem barranco, nem nada, se viu o sol de um lado deslizar, e a noite armar do outro (GSV, p.41)
No entanto, as coisas não são tão simples assim. Em muitas das vezes, a alusão aos dias e noites não é meramente literal: sutilmente, - à semelhança do sol que lento se infiltra nas trevas e acende a manhã – outras conotações se nos anteparam, iluminando o texto, como por exemplo, nessa passagem: “Lhe ensino: porque eu tinha negado, renegado Diadorim, e por isso mesmo logo depois era de Diadorim que eu mais gostava. A espécie do que senti. O sol entrado. Daí sendo a noite, aos pardos gatos” (GSV, p.149), onde se dá uma fusão perfeita do estado de espírito da personagem com a natureza. Há uma passagem importantíssima para a compreensão do livro como um todo – e que por essa razão a ela me referirei com mais vagar, no último segmento deste trabalho, na qual Riobaldo fala de uma noite em particular (“dessa noite esquecer não posso” - GSV, p.160), alternando-se entre falar desta noite ela mesma e da noite, como um conceito abstraído daquela hora em que concretamente ocorria a ação, transformando a palavra noite em metáfora do momento angustiante que atravessava. Senão vejamos: “Já e já era noite. Noite da Jaíba dá de uma asada, uma pancada só. [...] a noite barrava bruta. [...] Digo ao senhor: a noite é da morte? [...] Do escurão, tudo mesmo é possível. [...] Acender cigarro e se pitar, não se podia. A noite é uma grande demora. [...] O que eu queria era que tudo sucedesse, mal ou bem aquela noite tivesse termo de terminada [...] A noite durava. [...] Até que o dia deu, que é que foi do meu tempo, que horas que se passaram? (GSV, p.156-158)[1].
Temos aqui a dimensão exata da travessia – de uma noite, da vida toda. A última frase, de impressionante ambigüidade, (possuindo ambos os tempos: presente e pretérito), liga-se a outra, em que Riobaldo diz: “Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” (GSV, p.52).
Ainda no nível da literalidade, as descrições de pessoas, paisagens, animais, as quais, também, - à semelhança do que já foi visto em relação aos dias e noites – assumem, por vezes, conotações outras, facilmente compreendidas, associadas à negritude e à claridade inerentes aos seres e às coisas.
Sempre me lembro dele, me lembro mal, mas atrás de muitas fumaças. Naquela hora, eu estava querendo que ele não virasse a cara. Virou. A sombra do chapéu dava até em quase na boca, enegrecendo (GSV, p.91).
Tão magro, trestriste, tão descriado, aquele menino já devia de ter prática de todos os sofrimentos. (...) O couro escuro dele era que tremia, constante, e tremia, constante, e tremia pelo miúdo, como que receando em si o que não podia ser bom (GSV, p.299).
Rios bonitos são os que correm para o Norte, e os que vêem do poente – em caminho para se encontrar com o sol (GSV, p.233).
Ah, meu Urucúia, as águas dele são claras certas (GSV, p.232)
Porque, nos gerais, a mesma raça de borboletas, que em outras partes é trivial regular – cá cresce, vira muito maior, e com mais brilho, se sabe; acho que é do seco do ar, do limpo, desta luz enorme (GSV, p.24)
Depois de percebermos que claro e escuro são palavras que – como veremos agora – estão usadas metaforicamente no texto, adquirimos a certeza de que são aplicadas no nível da literalidade apenas para intensificar o propósito metaforizante, como se tudo nesse livro obedecesse a um plano apriorístico, a partir do qual se delineassem as personagens, a paisagem – a vida, enfim.
Mas passemos ao segundo nível, o da metaforização propriamente dita. No Dicionário Houaiss da língua portuguesa, encontram-se no verbete LUZ – entre outros – os seguintes significados: “Iluminação que procede do Sol durante o dia; luz do dia, claridade. FIG. Idéia que ilumina a mente; intuição da verdade; esclarecimento, elucidação, informação. FIG. Caráter de clareza, de evidência, de certeza, que alguma coisa oferece ao espírito. FIG. Faculdade de perceber as coisas; inteligência. FIG. Ilustração, saber. FIG. Brilho, fulgor (acendeu-se em seus olhos a luz da cobiça). FIG. pessoa eminente, luminar” (Houaiss; Villar, 2001: 1795). E no verbete ESCURIDÃO: “Qualidade do que é escuro; ausência de luz. Negrume, escuro. FIG. Tristeza ou melancolia profunda. FIG. Ausência de clareza, de limpidez, de perceptibilidade” (Houaiss; Villar, 2001: 1213).
Assim, vemos que Guimarães Rosa não se vale, em sua metaforização, de imagens abstrusas, mas ao contrário, restringe-se aos significados triviais dicionarizados, esgotando a nomenclatura usualmente registrada pelos léxicos mais comuns. Em Grande sertão: veredas, a verdade, a alegria, a coragem, a liberdade, o saber, o amor, tudo está associado à luz e à claridade, enquanto que o falso, a tristeza, o medo, a prisão, o ódio, a ignorância, às trevas e à escuridão:
Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade? (GSV, p. 260)
Vi um sol de alegria tanta, nos olhos de Diadorim. (GSV, p. 189)
Esbarrei em meu caminhar, fiquei assim parado, assim mesmo. O medo nenhum: eu estava forro, glorial, assegurado [...] assim permaneci, outro tempo acendido. (GSV, p. 327)
Ali eu diante de portas abertas, por livre ir, às larguras de claridade. (GSV, p. 351)
[...] desde que algum entendimento alumiou nele. (GSV, p. 13)
[...] tornava a ter fé na clareza de Medeiro Vaz. (GSV, p. 45)
Diadorim alegre e eu não. Transato no meio da lua. Eu peguei aquela escuridão. (GSV, p. 74)
Mas aquele missionário governava com luzes outras. (GSV, p. 172)
Natureza da gente bebe em águas pretas. (GSV, p. 155)
[...] alma dele estava no breu. (GSV, p. 14)
Em seu Dictionary of symbols, J.E.Cirlot escreve – à p. 232 - que a escuridão corresponde ao caos, à escuridão primordial e ao nada místico. A escuridão introduzida no mundo, depois da criação da luz, é regressiva, daí ter sido associada, desde então, ao princípio do mal. Por sua vez, a luz está ligada ao espírito, às virtudes, à moral, à força criadora. A superioridade do espírito é reconhecida pela sua intensa luminosidade, diz o autor.
Da primeira palavra do livro ao desenho final, símbolo do infinito, a trajetória do nada ao todo, do caos ao cosmos, da escuridão à luz – cifradamente aludida por Riobaldo em sua última palavra: TRAVESSIA, “resenha duma viagem”.
Riobaldo oscila todo o tempo entre o claro e o escuro, entre o saber e o não-saber, pois afinal o que ele está narrando a seu interlocutor é justamente a travessia de uma à outra margem de sua vida. Daí alternarem-se, no texto, momentos de claridade e momentos de escuridão, como estes sobre os sentimentos de Riobaldo em relação a Diadorim: “Naqueles dias, então, eu não gostava dele? Em pardo. Gostava e não gostava.” (GSV, p. 139). “Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de mor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo se esclareceu.” (GSV, p. 220).
Numa outra passagem, ele usa a palavra esclaro: “Tinha tornado a pôr a mão na minha mão, no começo de falar, e que depois tirou; e se espaçou de mim. Mas nunca eu senti que ele estivesse melhor e perto, pelo quanto da voz mesmo repassada. Coração – isto é, esses pormenores todos. Foi um esclaro”. (GSV, p. 34), palavra que é uma criação dele e que condensa os dois estados – escuro e claro – e ainda implica a dinâmica da passagem de um para o outro.
A travessia de Riobaldo é lenta e padecida e ele próprio tem consciência desse processo. “[...] e o senhor depois verá que naquela minha noite eu estava adivinhando grandes coisas, grandes idéias” (GSV, p. 119). Divide em três fatos a sua vida: o encontro com o Menino; a morte de Bigri, sua mãe e o pacto com o demo.
Foi um fato que se deu, um dia, se abriu. O primeiro. (GSV, p. 79)
Adiante? Conto. O seguinte é simples. Minha mãe morreu – apenas a Bigri, era como ela se chamava. [...] ela morreu, como a minha vida mudou para uma segunda parte. (GSV, p. 87)
Não tenciono relatar ao senhor minha vida em dobrados passos; servia pra quê? Quero é armar um ponto dum fato para depois lhe pedir um conselho. (GSV, p. 166) tem alguma ocasião diversa das outras? Declaro ao senhor: Hora chegada. Eu ia. (GSV, p. 316)
A esses três passos de sua travessia, Riobaldo se refere metaforicamente:
E o Menino pôs a mão na minha. [...] Amanheci minha aurora. (GSV, p. 84).
Amanheci mais. (GSV, p. 87)
As coisas assim a gente não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas! (GSV, p. 319)
E também à travessia como um todo, no final do livro: “Isto não é um relatar passagens de sua vida, em toda admiração. Conto o que fui e vi, no levantar do dia: auroras” (GSV, p. 460).
Zé Bebelo, uma das personagens de predileção de Riobaldo – “Amigo, foi uma das pessoas nesta vida que eu mais prezei e apreciei”. (GSV, p. 62) -, é um dos agentes catalizadores desse processo: “Zé Bebelo me alumiou” (GSV, p. 235).
Dentro desse quadro, é interessante observar como são situadas as personagens Otacília e Diadorim. A primeira liga-se à alegria, ao relacionamento sem conflito, à luz, enfim; enquanto que Diadorim, representando a angústia, o sofrimento, o amor não concretizado, como que escurece (ou nubla) Riobaldo:
Sol em glória. Eu pensei em Otacília. (GSV, p. 383)
[...] Otacília – sol dos rios...(GSV, p. 412)
Diadorim é a minha neblina. (GSV, p. 22)
Há, no entanto, outro ângulo da personagem Diadorim que difere deste visto agora e que não pode ser esquecido. Se por um lado, ela envolve Riobaldo na neblina do conflito amoroso, por outro ela lhe serve de guia: é por sua mão que Riobaldo aprende a coragem. Nesse sentido, ela é também personagem iluminada e iluminadora:
Vi como é que olhos podem. Diadorim tinha uma luz. Reponho: em tanto já estava noitinha, escurecendo; aquela escuridão queria mandar os outros embora. O que Diadorim reslumbrava, me lembro de, hei-de me lembrar, enquanto Deus dura. (GSV, p. 308).
Diadorim me olhou tremeluzentemente: de coragem, de disposto (GSV, p. 382).
A boa surpresa, Diadorim vindo feito um milagre alvo (GSV, p. 181).
O terceiro nível, finalmente, é o da narratividade. Através de sua fala, Riobaldo “guia” seu interlocutor “até tudo”, numa verdadeira travessia, também para este, pois a narração caminha – ela mesma – do escuro para o claro: “O senhor espere o meu contado. Não convém a gente levantar escândalo de começo, só aos poucos é que o escuro é claro” (GSV, p. 147).
É dessa forma que Riobaldo consegue uma adequação perfeita entre aquilo que está narrando e a própria atividade de narrar. “De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Assim eu acho. Assim eu conto” (GSV, p. 78). Se em sua vida os fatos foram acontecendo desordenadamente, sem que ele soubesse como nem por quê, também o fio da narração é desarticulado, confuso mesmo, os planos temporais se antepõem, como se o narrado espelhasse, fielmente, o embaralhamento existencial. Todavia, essa fragmentação que impressiona à primeira vista, é apenas aparente. Assim como o fluir da vida é conduzido secretamente por uma coerência que não conhecemos, as palavras do narrador obedecem a uma associação de idéias que pode ser rastreada no texto.
Transformar a narração na própria coisa narrada é preocupação constante em Riobaldo, que ao falar de “poesia”, usa redondilhas maiores: “Sete voltas, sete dei; pensamentos eu pensava. Revirei meu fraseado. Quis falar em coração fiel e sentidas coisas. Poetagem” (GSV, p. 149).
Se para Riobaldo a travessia foi lenta e padecida, também para o interlocutor deve sê-lo. Aqui, a luz se faz ao mesmo tempo para ambos: para Riobaldo que re-vive (e que, talvez, somente aí, no instante da verbalização, descubra o que foi sua vida) e para o interlocutor, que finalmente conhece o segredo tão adiado:
Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço - mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo no átimo em que eu também só soube...que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita (GSV, p. 453).
Essa iluminação de ambos a respeito de um mesmo fato é expressa em nível coloquial, pela expressão tão reiterada ao longo da narrativa: ou usada por Riobaldo, inúmeras vezes, referindo-se a si próprio, em momentos de descoberta: “Assim, ah – mirei e vi – o claro claramente” (GSV, p. 451), ou dirigindo-se ao interlocutor, numa espécie de advertência: “Mire e veja”, equivalente a “descubra você, como eu descobri”. O ato da descoberta, no momento da verbalização, vem expresso em várias passagens do livro:
Conto para mim, conto para o senhor. (GSV, p. 112)
Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-lenga! não devia-de. O senhor é de fora, meu amigo, mas meu estranho. Mas, talvez por isso mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo logo se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais comigo mesmo (GSV, p. 33).
Eu queria decifrar as coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria vertente (GSV, p. 79).
Agora, neste dia nosso, com o senhor mesmo – me escutando com devoção assim – é que aos poucos vou indo aprendendo a contar corrigido (GSV, p. 297).
Antes de começar a narrar aquele que considera o primeiro fato que se deu em sua vida, Riobaldo anuncia: “Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é sua fineza de atenção” (GSV, p. 79). Anuncia, dessa forma, o próprio livro, através da enunciação do título: Grande sertão: veredas, sertão que é também a vida: “Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa” (GSV, p. 410). Este é o ponto de partida para a grande travessia. Riobaldo não sabe ainda. Ninguém sabe.
Também ao leitor de Guimarães Rosa compete a travessia. Em nota escrita para anunciar Grande sertão: veredas, na orelha de um de seus livros, o autor não esconde essa intenção: “Aos leitores, e aos que escreverem sobre este livro, pede-se não revelar a sequência de seu enredo, a fim de não privarem os demais do prazer da descoberta do GSV”.
É para intensificar esse “prazer da descoberta” que Guimarães Rosa tece, em torno do final, uma imensa expectativa, já delineada a partir da primeira menção de Riobaldo ao ato de contar: “Fosse eu contar...” (GSV, p. 11), assim mesmo, seguida de reticências, como que para acender em seu interlocutor/leitor a chama do desejo de seu relato. Um pouco mais adiante, ainda reticente, diz Riobaldo: “Hem?Hem? Ah. Figuração minha, de pior para trás, as certas lembranças. Mal haja-me. Sofro pena de contar não...” (GSV, p. 11). O interlocutor/leitor só se dá conta de que já está mergulhado na narração propriamente dita, quando Riobaldo, pela terceira vez, menciona o verbo contar: “Ai, arre, mas: que esta minha boca não tem ordem nenhuma. Estou contando fora, coisas divagadas” (GSV, p. 19), sendo esta não-ordenação dos fatos um elemento a mais na construção de um texto que deve conduzir a um “final sustante, caprichado” (GSV, p. 67).
É a esse final que Riobaldo se refere o tempo todo, alimentando no ouvinte a vontade de saber: “fim do bom logo vem, mas” (GSV, p. 116). “O senhor entenderá, agora ainda não me entende” (GSV, p. 116). E desfia o texto inteiro assim, salpicando de instigações que prenunciam um final inesperado: “Depois se deu a selvagem desgraça, conforme o senhor ainda vai ver, que já lhe conto” (GSV, p. 217).
A impressão que tudo isso causa é a de que o texto é deliberadamente construído com o intuito de levar o interlocutor a um ponto do qual já não possa voltar, e queira o fim, de qualquer maneira – “O senhor já ouviu até aqui, vá ouvindo. Porque está chegando a hora d’eu ter que lhe contar as coisas muito estranhas” (GSV, p. 288) -, à semelhança do que Riobaldo sente em relação à sua vida, e que o leva a indagar: “Será que tem um ponto certo, dele a gente não podendo mais voltar para trás? Travessia de minha vida” (GSV, p. 220). Por ocasião de um fato que se dá, ele confessa mais adiante: “Acho que aquele na minha vida foi o ponto e ponto e ponto” (GSV, p. 254).
Esse ponto do qual já não se volta, na narração, vale para ambos: o narrador já não pode deixar de contar, o ouvinte não pode deixar de escutar. “Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho – falar no assunto que o senhor está de mim esperando. E escute” (GSV, p. 370).
A cantiga de guerra do bando jagunço está relacionada a isto – a este “ponto de marca, que dele não se pode mais voltar para trás” (GSV, p. 164) – mostrando a distinção entre eles todos e Riobaldo – “Feito meninos. Disso eu fiz um pensamento: que eu era muito diverso deles todos, que sim. Então, eu não era jagunço completo, estava ali no meio executando um erro. Tudo receei. Eles não pensavam” (GSV, p. 271).
Olerereêe bai-
ana...
Eu ia e
não vou mais:
eu fa-
ço que vou lá dentro, oh baiana,
e volto
do meio
p’ra trás... (GSV, p. 136)
a cantiga expressa o principal requisito para ser jagunço, e que está dito nas palavras de Riobaldo: “Não podendo entender a razão da vida, é só assim que se pode ser vero bom jagunço” (GSV, p. 432). Por não possuírem o “sabido motivo”, por nem desconfiarem de que deveriam tê-lo, eles não completavam a travessia: voltavam do meio pra trás. Diverso deles, Riobaldo atravessou.
Na própria narração de Riobaldo podem-se identificar dois momentos distintos. Na metade rigorosamente exata do livro, está dito:
Ah, meu senhor, mas o que eu acho é que o senhor já sabe mesmo tudo – que tudo lhe fiei. Aqui eu podia pôr ponto. Para tirar o final, para conhecer o resto que falta, o que lhe basta, que menos mais, é pôr atenção no que contei, remexendo vivo o que vim dizendo. Porque não narrei nada à-toa: só apontação principal, no que crer posso. Não esperdiço palavras. Macaco meu veste roupa. O senhor pense, o senhor ache. O senhor ponha enredo” (GSV, p. 233).
A partir daí, é como se Riobaldo re-contasse – de outra maneira – a mesma coisa, sendo que, desta feita, decifrando (=tornando claro) o que apareceu cifrado (=escuro) na primeira metade, como se o livro tivesse caráter especular. Travessia de Riobaldo, travessia do interlocutor, travessia do leitor. O grande final, descrito em seus pormenores, já está realmente contado à p. 147:
Como foi que não tive um pressentimento? O senhor mesmo, o senhor pode imaginar de ver um corpo claro e virgem de moça, morto à mão, esfaqueado, tinto todo de seu sangue, e os lábios da boca descorados no branquiço, os olhos dum terminado estilo, meio abertos meio fechados? E essa moça de quem o senhor gostou, que era um destino e uma surda esperança em sua vida?! Ah, Diadorim...e tantos anos já se passaram.
A essa altura, no entanto, como o interlocutor poderia sabê-lo? O texto é de tal modo ambíguo, que é impossível detectar a verdade lendo-se a verdade ela mesma. É por isso que o leitor passa por cima de frases que trazem, em seu bojo, o segredo de Diadorim, sem percebê-lo:
E o menino pôs a mão na minha [...] Era uma mão branca, com os dedos dela delicados (GSV, p. 84).
[...] pois lá n’Os Porcos não era a terra de Diadorim própria, lugar dele de crescimento? (GSV, p. 216)
Diadorim e eu, a sombra da gente uma só uma formava. Amizade, na lei dela (GSV, p. 189).
Diadorim, Diadorim – será que amereci só por metade? (GSV, p. 453)
Morria com um bé de carneiro ou um au de cão; mas tinha sido um maior destino e uma mor coragem (GSV, p. 142, grifos meus).
Não é por coincidência que a esta mesma altura do livro – a metade rigorosamente exata, de que falei – Riobaldo venha a perguntar: “Minha vida teve meio-de-caminho?” (GSV, p. 235), numa outra demonstração de que viver e contar se equivalem. E mais adiante dirá: “Digo franco: feio o acontecido, feio o narrado” (GSV, p. 389). Esta equivalência está mais do que evidente no paralelismo dessas frases:
Viver é muito perigoso (GSV, p. 22).
Contar é muito, muito dificultoso (GSV, p. 142).
A duplicação do advérbio muito, na segunda frase, quebrando – de certa forma – o paralelismo, ao mesmo tempo em que o intensificando, implica que contar (ou re-viver) é mais ousado que viver. Viver é perigoso porque ainda não se sabe. Contar é difícil porque já se sabe: “Hoje repenso” (GSV, p. 376). Viver e contar, de fato se equivalem. O narrador só sabe o que viveu contando o vivido. Daí, a essencialidade do interlocutor, sem o qual Riobaldo ignoraria o sentido último de sua existência, revelado ao fio dessa longa fala, que transforma tudo naquilo que realmente tudo é. Por isso que “contar é muito, muito dificultoso”; corresponde a uma revelação do eu, processo sempre doloroso, como de resto se verifica na terapia psicanalítica. É muito tênue o véu que separa o saber do não-saber. Sabe-se num átimo, num “mim de minuto”. Tudo está disposto como é na realidade – “O que induz a gente para más ações estranhas, é que a gente está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe” (GSV, p. 79) – é só uma questão de mirar e ver: “E me cerro aqui, mire e veja” (GSV, p. 460). Com sua narração, Riobaldo descerra o véu que separa os dois lados e mostra, a seu interlocutor, o claro, claramente. E termina: “Cerro. O senhor vê. Contei tudo” (GSV, p. 460).
II
Tem horas em que, de repente, o mundo vira pequenino, mas noutro, de repente ele já torna a ser demais de grande, outra vez. A gente deve de esperar o terceiro pensamento. (GSV, p. 50)
Ele era rico e somítico, possuía três fazendas de gado (GSV, p. 84).
- Sou barranqueiro! – o canoeirinho tresdisse, repontando de seu orgulho (GSV, p. 84).
[...] e que eu esperava, esperava, esperava, como até as pedras esperam (GSV, p. 259).
Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse [...] Diadorim – nu de todo. E disse: - A Deus dada. Pobrezinha [...] E disse. Eu conheci! (GSV, p. 453).
Eh, que se vai? Jájá? É que não. Hoje, não. Amanhã, não. Não consinto. O senhor me desculpe, mas em empenho de minha amizade aceite: o senhor fica. Depois, quinta-de-manhã-cedo, o senhor querendo ir, então vai, mesmo me deixa sentindo sua falta. Mas, hoje ou amanhã, não. Visita, aqui em casa, comigo, é por três dias (GSV, p. 22).
Outro aspecto da construção de Grande sertão: veredas é a utilização que Guimarães Rosa faz daquilo que chamarei a tríade, e que – à semelhança da aplicação do claro-escuro – também se hierarquiza em três níveis: 1) o da nomeação; 2) o da significação e 3) o do motivo do terceiro dia.
O primeiro nível corresponde – de certa forma – àquele da literalidade do segmento anterior. Aqui o três aparece sem outras conotações que não a literal, embora com a tendência a reforçar o significado de seu emprego nos outros dois níveis, exatamente como ocorre no uso do claro-escuro. É este o nível da nomeação pura e simples do numeral três, demarcando quantidade, distância, grupos humanos etc.:
Eu já tinha preenchido três cartas (GSV, p. 251).
E também do desgraçado do homenzinho-na-égua, com o cachorro dele, que vieram vindo, três léguas depois daquele (GSV, p. 355).
Constante que com a gente estavam três bons rastreadores (GSV, p. 39, grifos meus).
O numeral três se encontra disseminado por todo o texto, aparecendo – inclusive – como prefixo fantasioso na formação de verbos, dos quais cito apenas alguns:
Tal, de tarde, o bento-vieira tresvoava, em vai sobre vem sob, rebicando de vôo todo bichinhozinho de finas asas; pássaro esperto (GSV, p. 25).
A porque, sem prazo, se esquentou em mim o doido afã de matar aquele homem, tresmatado (GSV, p. 355).
Mas – perdoando Deus – tresandava mais era dentro da casa, mesmo sendo enorme: os companheiros falecidos (GSV, p. 266, grifos meus).
Em outras vezes, o três está presente no texto, não pela grafia do numeral, as pelo reverberamento de uma palavra na frase,
Com que as músicas, de lá, lá, lá...(GSV, p. 355).
Ah, ri, ele não. Ah – eu, eu, eu (GSV, p. 319).
Disse que não, não, não (GSV, p. 446).
E – quê-quê-quê? – o araçari perguntava (GSV, p. 82).
Coisas que vi,vi,vi – oi (GSV, p. 54).
Floriano, foi, foi, foi...(GSV, p. 150).
E o cavalão, lão, lão, pôs as pernas para adiante [...] (GSV, p. 325).
E eu casei com meu rifle, vim, vim, vim (GSV, p. 439).
O fevereiro feito. Chapadão. Chapadão. Chapadão (GSV, p. 238, grifos meus).
ou ainda pelo desdobramento de uma frase em segmentos que se equivalem sintática e/ou semanticamente:
Quero sombra? Quero eco? Quero cão? (GSV, p. 141).
Só tenho Deus, Joca Ramiro...e você, Riobaldo (GSV, p. 140).
No que jantei, ri, conversei (GSV, p. 97).
Mas nós passávamos, feito flecha, feito faca, feito fogo (GSV, p. 228).
Dias inteiros, nada, todo o nada – nem caça, nem pássaro, nem codorniz (GSV, p. 239).
Arreamos, montamos, saímos (GSV, p. 217).
A que não sei como tive o repente de isso dizer – falso, verdadeiro, inventado (GSV, p. 192).
Não podem deixar de ser citados, também neste nível, os casos em que a tríade está presente de modo mais diluído no texto, no sentido de que sua apreensão não se dá de imediato, após a leitura de uma frase, porém somente depois de se ler o livro inteiro. Riobaldo tem três amores: Nhorinhá, Otacília e Diadorim; a pedra que Riobaldo traz de Arassuaí como que se metamorfoseia animicamente três vezes: é topázio, é ametista, é safira; três são os nomes mais identificadores de Riobaldo: Tatarana, Riobaldo e Urutu-Branco; três são os fatos importantes da vida dele (já citados); três palavras compõem o título do livro.
No segundo nível, o da significação – a Tríade surge em forma de repetição de palavras, ou de expressões, dispostas em passagens relativamente mais extensas (às vezes um parágrafo, às vezes toda uma página ou até mais) e implica na ênfase dada a certos momentos cruciais, alguns deles, momentos de revelação:
Ele desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti... [...] Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti... [...] Desceu o Rio Paracatu numa balsa de buriti [...] Desceram...Nem cavalos eles não têm... – É ele! Mas é ele! Só pode ser...(GSV, p. 69).
- Lúcifer! Lúcifer!...aí eu bramei, desengulindo. Não. Nada. [...] – Lúcifer! Satanaz!...Só outro silêncio. [...] Ei, Lúcifer! Satanaz dos meus infernos! Voz minha se estragasse, em mim tudo era cordas e cobras. E foi aí. Foi (GSV, p. 319).
Barzabu! Aquieta cambada! – que eu gritei [...] – Barzabu! – ô gente!, feito fosse minha certeza, o Das-Trevas. [...] – Barzabu! – xinguei. E o cavalão, lão, lão, pôs pernas para adiante e o corpo para trás, como onça fêmea no cio mor. Me obedecia (GSV, p. 325).
Tem então freio possível? Teve, que teve. Aí resisti o primeiramente. [...] Sendo que mal resisti, nas últimas, saiba o senhor. Ah, mas. [...] Um anjo voou daí? Eu tinha resistido a terceira vez. Agora, Nhô Constâncio Alves estava delivrado de perigo (GSV, 356-7).
Qual: ...o diabo na rua, no meio do redemunho...O senhor soubesse... Diadorim – eu queria ver – segurar com os olhos... [...] ...o diabo na rua, no meio do redemunho... Sangue, [...] ...o diabo na rua, no meio do redemunho... Assim, ah - mirei e vi – o claro, claramente (GSV, p. 450-1).
O terceiro e último nível do uso da tríade, embora pudesse ser incluído no segundo (por motivos óbvios), não o é pela única razão de estar relacionado à própria atividade de narrar e, conseqüentemente, ao sentido último do livro, tão repetido no texto:
Por todo o mal, que se faz, um dia se repaga, o exato. Sujeito assim madruga três vezes... (GSV, p. 20).
E foi ele mesmo, no cabo de três dias quem me perguntou: - Riobaldo, nós somos amigos, de destino fiel, amigos? – Reinaldo, pois eu morro e vivo sendo amigo seu! – eu respondi (GSV, p. 115).
O que deu em nota foi outra coisa: foi a religião de Mutema, que daí pegou a ir à igreja todo santo dia, afora que de três em três agora se confessava (GSV, p. 170).
É sempre ao fim de três dias que os grandes fatos acontecem – “O que os meus olhos não estão vendo hoje, pode ser o que vou ter de sofrer no dia depois de amanhã” (GSV, p. 391) – três dias que correspondem, metaforicamente, a três espaços temporais, que tanto podem ser antevéspera, véspera e dia – “Trinquei os dentes. Mordi mão de sina. Porque era dia de antevéspera: mire e veja” (GSV, p. 425), como entardecer, anoitecer e amanhecer, como hoje, amanhã e depois etc.
Em três dias (ou em três tempos), se dá a passagem do escuro para o claro: “A gente viemos do inferno – nós todos – compadre meu Quelemém instrui. Duns lugares inferiores, tão monstro medonhos, que Cristo mesmo lá só conseguiu aprofundar por um relance a graça de sua sustância alumiável, em as trevas de véspera para o Terceiro Dia” (GSV, p. 40) – o que remete à ligação existente entre dois recursos – vistos aqui – de que Guimarães Rosa lança mão ao construir seu texto.
Riobaldo atravessou três etapas – representadas por três fatos que se deram em sua vida. No primeiro amanheceu sua aurora; no segundo, amanheceu mais; no terceiro, a iluminação chegou à das absolutas estrelas. Juntas, constituem o assunto de sua narração. Essa extensa narração – rio baldeado pelo interlocutor – se dá, também, no espaço de três tempos – três dias: “Visita, aqui em casa comigo, é por três dias!”, sendo de se notar que a narrativa começa numa terça-feira, terceiro dia da semana. Acredito que a escolha do número três, que não só preside numerologicamente Grande sertão: veredas, mas toda a obra de Guimarães Rosa, desde Sagarana, deve-se a razões puramente místicas. Como se sabe, a tríade é largamente privilegiada nos livros sagrados – Velho e Novo Testamento -, estando intimamente ligada ao mistério da divindade, já que Deus é uno e trino. O três é igualmente o símbolo da síntese:
TRÊS – Síntese espiritual. Formula de cada um dos mundos criados. Resolução do conflito colocado pelo dualismo. [...] Resultante harmônica da ação da unidade sobre o dois. [...] Número-idéia do céu e da Trindade. (Cirlot, 2005: 413)
De resto, sendo Grande sertão: veredas um texto dual, onde se confrontam os opostos – o Bem e o Mal, Deus e o Demo, o Claro e o Escuro -, a meu ver essa radical dualidade é conciliada ao nível da narrativa, por Riobaldo, que como aplicando uma fórmula mágica, recorre ao três, numa tentativa rudimentarmente religiosa de esconjurar os perigos da travessia.
Referências bibliográficas:
CIRLOT, J. E. Dicionário de símbolos. Trad. Rubens Eduardo Ferreira Frias. São Paulo: Centauro, 2005.
HOUAISS, Antônio e VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Elaborado no Instituto Antonio Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas, 10 ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1976.
__________________. O verbo & o logos – Discurso de posse. In Livraria José Olympio Editora (org.). Em memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1968.
[1] Observar que o tempo dos verbos por mim grifados –presente e pretéritos – está diretamente relacionado à alternância assinalada entre a concretude e a abstração.
| Pour citer cet article: HAZIN, Elizabeth, « A terceira travessia », Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009, URL: www.pluralpluriel.org. |


