Numéro 2: Textes et Documents

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José Miguel Braga

Poema para Sara

 

à memória de Sara Faria de Azevedo e Vasconcelos Correia

 

O dia começa e a princípio a estrada parece boa como todas as estradas. Depois há as pedras que dão para lugares bonitos e nessas ocasiões olha-se com alguma intensidade porque é assim que nasce um pensamento. Escusado será dizer que isso me assusta um pouco. Tenho até vontade de continuar só. Espero o teu sinal para me afastar das sombras, mas é melhor deixar que a noite chegue sem percalços e que o silêncio me venha ajudar.

 

*

 

Vou precisar de todas as forças nas próximas horas. Os trabalhos cansam e quando assim é a realidade foge à minha frente como os gritos das crianças que abandonam o jogo e correm para casa. Aqui, onde aprendemos a contar, os números ainda hoje lembram a música, como se ela vivesse na massa escura da matéria e fosse possível encontrá-la através da hipótese e do pensamento. Às vezes nós temos esperança porque sabemos que são belos os lugares por onde passou a nossa juventude. Então a imensidão abre-se, música revela-se com seu ar de matéria polida e os anjos visitam a cidade.

 

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Dedico este dia a estudar a composição das sombras e fico sentado de costas até cair a primeira água. É suave a hora e tudo à nossa volta está em sossego. Ouve-se a gramática e as suas altas sentenças e podem ouvir-se as folhas se ficamos a beber chá enquanto o sol se põe. Então o céu aproxima-se e chegam até nós os elementos que andavam pelo ar: o cinzento e o verde; primeiro a água e depois a música. A cerimónia demora algum tempo e no fim, quando a última folha repousa, as cores apagam-se.

 

 

É raro ouvir cantar deste lado do jardim; mas há dias em que o canto se transforma em esquecimento e subo através da memória ao limite do tempo, onde é certo que as partes do meu corpo se separam e que de mim viaja apenas uma ideia abandonada. Estou mais calmo depois de pensar e nenhuma metáfora se levanta para me inquietar. Fico então a ouvir as minhas sombras esperando que o dia passe e que o atrito me faça cantar uma ode para só fingir num género maior.

 

 

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Não é necessário falar para ser contente e as palavras dizem-no como se dessem sentido ao corpo e pudessem existir onde nunca ninguém as visse. As palavras adoram os segredos e por isso fingem que as coisas são como são. Há pouco, quando descíamos a rua para passear mais um pouco, o pensamento ficava parado por causa do movimento e o dia mais longo se nos sentávamos a olhar. Neste ponto só ficava o teu sorriso a iluminar o meu silêncio.

 

*

 

Até amanhã, dizias… e eu tinha saudades só de olhar para ti e pensava no dia seguinte como se o tempo fosses tu e eu apenas alguém ao fim da rua, olhando a tua janela como se não houvesse mais literatura. Então eu imaginava que chegava uma noite escura e que não podia encontrar-te. Havia os cabelos lisos e o teu sorriso de água a cair, mas a sombra da montanha era a minha solidão; então as nossas almas atravessaram a noite e conheceram cidades diferentes e quando o dia amanheceu ambos estávamos perdidos olhando um rio que passava.

 

 

Dizem que fecham as portas da cidade e que a escuridão é enorme e se levanta pela noite como um convento gelado que pudesse calar as almas e fechar as palavras numa cela. Dizem-me que isto acontece muitas vezes e que sou eu que ando distraído. Como não acredito, vou um pouco mais cedo para ver se é verdade que fecham os caminhos e que ninguém pode chegar depois da hora. Antigamente era assim, mas o meu pai perdoava-me e eu era feliz. Agora não sei. Dizem que é perigoso falar e que as coisas não vão bem. Só falta confirmar um presságio ou levantar a sombra de uma lenda para desencadear o desastre. Começo a pensar que seria melhor eu não voltar. Gosto deste lugar sem nome e sem pensamento. O meu país é estar à tua beira.

 

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Quando começar a chover, fico atento ao que acontece debaixo do chão, só para confirmar que afinal é simples o reino da matéria. Uma grande agitação de vermes e raízes toma conta da criação. Por ora mal se vê, mas lá virá o tempo em que as coisas se renovam. Nós sabemos que na sombra se prepara o espectáculo e um dia, perante a energia das cores e a erupção das formas, diremos o júbilo, a precária certeza de que as coisas mudam, como este vento que nasce agora.

 

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Ao fim do dia, como faria um poeta expulso do palácio, pego nas palavras e vou-me embora. Desta forma nunca viajo sozinho. E há algumas que tu conheces muito bem e que me fazem companhia durante a noite. Durmo lentamente o meu sossego e divirto-me porque sei que os sonhos lembram a memória ao contrário e desarrumam as geometrias. Não me importo de ser um poeta pobre e de andar pelas ruas, parando a alguma porta e olhando a ver se espreita alguém. Deito-me em cima de um triângulo ou de um quadrado, tanto faz, mas ninguém sabe que eu vivo com este silêncio e que acordo como se dentro de mim nascesse um dia de verão, quando os teus passos se aproximam.

 

 

Se estás atrás da janela e não te vejo aparecer, penso que dentro de mim tudo é inútil. Fico parado como se estivesse a guardar um segredo e enquanto a água cai distraio-me a ver passar as aves e a imaginar as flores que levarias se tivesses de ir até ao céu. Quando a chuva diminui, a calma do tempo traz mais silêncio à minha dor.

 

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Hoje falaram-me de ti. A princípio fingi que não percebia e procurei olhar para o lado como quem se distrai com as coisas que acontecem por perto. Mas não acontecia nada naquele momento e eu ouvia perfeitamente a voz que me falava com insistência. Pela minha parte, continuava alheio para que ninguém visse a funda agitação nos meus olhos. Depois fiquei sozinho no mundo e comecei a ter sede. Era uma ausência de água que me fazia correr e que deixava os meus pensamentos caídos por onde eu passava. Foi por essa razão que eu abandonei a cidade e que tu pensaste que eu tinha fugido.

 

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Enquanto andei sozinho descobri o que era a preocupação e o pesadume. Quando era pequeno aprendi a olhar para as coisas e a saber o seu nome; por isso elas me eram familiares. Conhecia os nomes das árvores e as plantas mais pequenas que a minha mãe utilizava para fazer o chã ou os remédios. Aprendi a conhecer os ninhos e a saber quando passavam as aves. Em cada tempo havia chegadas e partidas, as cores mudavam e eu ia crescendo. Um dia disseram-me que as coisas não seriam sempre assim e que algumas podiam mudar enquanto outras desapareceriam para sempre. Nessa noite não dormi e comecei a ver o meu rosto de outra forma e era ele que perturbava as águas onde o corço bebia.

 

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Como eram belas as manhãs quando o melro mexia a terra e o noroeste trazia as primeiras nuvens brancas e o frio cortava a face. Um dia acordei com medo de que tudo isso pudesse desaparecer e que depois não houvesse as mesmas árvores para eu brincar e o mesmo céu para olhar. Felizmente tudo isto não passou de um pesadelo e estou ansioso por trocar impressões contigo.

 

 

Demorei algum tempo a regressar. Passaram as estações e contei vários anos ao longo desses tempos. Vivi num lugar escuro de maneira que ninguém me visse. Nesse tempo tu saías para caminhar sob as tílias e davas longos passeios. Um dia fui descendo lentamente até me habituar de novo a ver passar o tempo e a pensar na linguagem como aquilo que nos permitia ser algo ou alguém entre as casas, as avenidas e o céu. Quando passava por uma poça de água ou um charco, olhava e via as janelas e os telhados. A última vez que o céu me apareceu foi quando ouvi a tua voz. Fiquei sem saber o que fazer. Fechei os olhos e procurei a noite dentro de mim e tu seguiste-me. Fomos dar a um sítio que ambos conhecíamos. Não me lembro de mais nada.

 

*

 

Era de novo o dia e as palavras vinham docemente do mesmo modo que era doce pensar porque não havia palavras para além de ti, do teu olhar e dos sentidos que nasciam. Ao meu lado havia uma fonte que eu já conhecia de um livro antigo, mas também passava a torrente das águas que fazia pensar nas histórias que o avô contava. Os lugares eram comuns, como convinha a um homem sem pátria e a uma donzela sem reino. Nesse sentido éramos gente deste tempo e sentíamos a nossa modernidade de uma forma honesta. O conhecimento transforma a hipótese em lei e nós sabíamos que o tempo passava e que as águas fugiam.

 

 


 

José Miguel Braga (Braga,1957) publica de forma (ir)regular em jornais e revistas. Pouco lhe importa a literatura, a não ser quando escreve ou quando lê, o que faz quase todos os dias. Do seu trabalho literário gosta de lembrar o poema Arquipélago de Sombras (2004), Lição de Desenho no Orfanato com Alberto Peixoto (2007), bem como o poema que agora se publica. É professor de Português e de Técnicas de Expressão, foi Leitor nas universidades Blaise Pascal (Clermont-Ferrand) e Paris X-Nanterre.