Uma descoberta de Michel Laban : “Fabião”, de Rui Nogar

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Adriano Alcântara

Escola Secundária José Saramago – Mafra

 

 

1. Palavras Necessárias

 

Acabámos por nunca nos sentar em mesa amiga e conversa amena, ao calor de um tinto alentejano, tantas e mútuas vezes prometido. Aliás, acabámos até por nos cingir a um só e fugaz aperto de mão, caloroso embora. Corria o ano de 1998 e o convite pessoal levou-me orgulhoso ao Porto, à apresentação dos três volumes de Moçambique – Encontro com Escritores. Assim, encontrámo-nos essa primeira e afinal derradeira ocasião no auditório da Fundação Eng. António de Almeida, por entre o cerco de mil outras solicitações. E o ganho foi, com certeza, de sentido único: além do monumental conjunto de entrevistas a escritores cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos, ainda hoje guardo a oferta do largo sorriso da franqueza a olhar-me nos olhos.

 

Será rara, a sinceridade. Creio, porém, que dela se dá conta mesmo à distância. Se assim não fosse, se a não tivesse pressentido no tom de voz ao telefone, na preocupação das perguntas formuladas por carta ou na pertinência das críticas e sugestões feitas por correio electrónico, não sei se o relacionamento teria perdurado. Pouco importa, agora, e infelizmente. Mas vale recordar que o primeiro contacto aconteceu em meados dos anos noventa, por intermédio da professora Fátima Mendonça, da Universidade Eduardo Mondlane. À época, era leitor do Instituto Camões na Universidade de Nantes, e longe estavam já os anos do caderno literário Xiphefo e da minha vida em Moçambique.

 

Sabia decerto do interesse aqui e ali despertado pelo referido caderno, mas achei estranho haver quem, na Sorbonne, ainda se preocupasse com a insignificância por mim nele deixada quase uma década antes. Foram, contudo, reticências de pouca dura. O que se me pedia era tão só o testemunho da experiência e conhecimento da língua portuguesa, utilizada com intenção estética num contexto preciso: Inhambane, 1984-89. Esclarecidas as circunstâncias em torno quer da dita intenção quer do conceito de nacionalidade literária[1], não pude senão admirar o esforço subjacente à recolha e análise científica das singularidades linguísticas do português de Moçambique.

 

Longas cartas trocámos então. Questões minuciosas, respostas atentas, ou pelo menos elaboradas com esse objectivo. Ao tratamento formal, sucedeu a amizade, apesar do afastamento. No dealbar do século, amiúde alterámos o tema do diálogo, e a lisura atrás notada acentuou-se nas mensagens a respeito das minhas preocupações com a dissertação de mestrado ou, logo depois, com a redacção das biografias a que me dedicava. Prova disso é o conto que a seguir apresento: quem me informou onde encontrar o original foi o amigo e investigador aqui homenageado. O texto que acompanha essa narrativa aproxima-se da versão por ele lida e criticada, exceptuando-se as alterações ditadas pela exigência do resumo ou aconselhadas pela política editorial da revista. É a única forma de agradecer ao Michel, assim o sinto. Diz-me a experiência que por aqui devia ficar, mas não resisto:

 

Sei que um cravo vermelho te foi entregue, companheiro. Faço questão, agora, de acreditar que o tal copo uma qualquer vez acabará nas nossas mãos, bebido à vida.

 

 

2. Rui Nogar – Notas biográficas

 

Rui Nogar é o pseudónimo literário de Francisco Rui Moniz Barreto (Lourenço Marques, 1932 – Lisboa, 1993). Filho de emigrantes brancos oriundos de Goa, após a morte do pai abandonou os estudos secundários, a fim de prover ao sustento da família. Considerava-se um auto-didacta, cuja formação devia tanto ao exemplo dos pais como ao de professores, exilados políticos portugueses, que o alertaram para as questões sociais e a necessidade de as problematizar no contexto colonial.

 

Vivenciou de perto desigualdades e injustiças, quer no subúrbio laurentino quer no seu percurso profissional: trabalhou junto dos carregadores do cais e como praticante de escriturário nos Caminhos de Ferro de Moçambique. Posteriormente, foi “copywriter”, contabilista e redactor em diversos títulos da imprensa, como a Tribuna ou O Brado Africano.

 

Com Craveirinha, participou nas actividades da Associação Africana, aí se notabilizando como declamador. Foi, aliás, na sequência de uma das sessões culturais dinamizada naquela Associação, em 1953, que a polícia política o deteve pela primeira vez. Os seus poemas mais antigos datam de 1954-55 e surgem em O Brado Africano e no Itinerário. A coerência com que pautou a sua postura levou-o a ingressar na Frelimo, em 1964. Incumbido da organização da Região político-militar do sul do Save, acabou por ser novamente detido, em Janeiro de 1965. Julgado com Craveirinha, Luís Honwana, Malangatana Valente e outros, foi libertado da Cadeia Central da Machava a 28 de Maio de 1968. Deste período de detenção, datam muitos dos poemas que reuniu no seu único livro, Silêncio Escancarado, dado à estampa em Lisboa, com a chancela das Edições 70, no ano de 1982.

 

Não obstante a vigilância de que passou a ser alvo e a falta de informação sobre o avanço da luta armada, prosseguiu a sua actividade política clandestina até ao 25 de Abril de 1974. No período de transição, empenhou-se na preparação da independência, encarregue de organizar os grupos dinamizadores em Lourenço Marques. Depois, além de deputado da Assembleia Popular, assumiu outros cargos oficiais, tendo sido o primeiro Secretário-Geral da Associação de Escritores Moçambicanos e, a partir de 1987, Vice-Presidente da Assembleia Geral da mesma associação.

 

 

3. Rui Nogar – Notas críticas

 

A poesia de Rui Nogar filia-se no sistema plural das literaturas africanas de língua portuguesa, onde comunga do mesmo meio de comunicação e de mediação poética que lhe permite, também, ostentar marcas de diferenciação nacional, relacionadas quer com a especificidade do espaço moçambicano quer com o processo de autonomização literária e política que nele se desenvolveu, a partir de meados dos anos quarenta do século passado. Indissociável desse processo, a sua obra, paradigma da corrente poética associada ao movimento nacionalista, configura-se de forma fragmentada no tempo, porque envolvida nos sucessos da sua militância. Pela mesma razão, muitos dos seus textos mantêm-se esquecidos e dispersos, como são o caso do conto “Fabião”, de 1958, ou do poema narrativo “Nove hora”, dramatizado pelo Grupo Mutumbela Gogo, num espectáculo estreado a 27 de Março de 1989, no Teatro Avenida, em Maputo.

 

Os poemas de Rui Nogar representam, sobretudo, a vivência de um homem mais preocupado com os “[...] outros homens da sua época” (Saúte, 1998: 267) do que com a imortalidade literária. De facto, o poeta privilegiou, de igual modo, a acção político-social e a actividade poética: a consciência crítica dos problemas conjunturais da sociedade moçambicana conduziu-o à assunção da escrita como meio de expressão das suas inquietações, motivadas pela solidariedade e desejo de intervir em defesa da condição humana. Semelhante posicionamento norteou o seu trajecto biográfico e literário, balizado no enraizamento no “caniço”, quer dizer, no subúrbio de Lourenço Marques, na preocupação com o homem, nas memórias da luta anti-colonial e na convicção nos ideais do socialismo.

 

Contudo, se aceitamos que o objecto semiótico que é o texto literário dificilmente será elucidado “[...] se se considerar apenas o co-texto e se se atribuir a este uma autonomia e uma auto-suficiência sémico-formais absolutas [...]” (Aguiar e Silva, 1999: 295) julgamos também que a obra de Rui Nogar não se deve procurar entender preferencialmente no quadro do empenhamento revolucionário que a impregna, mesmo quando os poemas parecem representá-lo de modo tão claro quanto coerente.

 

Na verdade, os factores extra-literários que insinuam na sua poesia temas e formas recorrentes no discurso nacionalista não impedem, por regra, que os textos se afirmem como poesia e não como panfletos, isto é, como enunciados mais ou menos breves e virulentos, escritos sem intencionalidade estética, apenas com objectivos de agitação ou propaganda política.

 

Regida embora pelo comprometimento ideológico e político, a criação poética do Autor não se estrutura de preferência a partir do “eu-nós” inclusivo, não se limita a representar literalmente a realidade, nem se aglutina apenas em torno da indignação, da denúncia ou da defesa da acção militante. Enunciados também na primeira pessoa do singular, os poemas encontram no real os pretextos para desvendar o íntimo de um sujeito que, exprimindo-se, constrói uma poesia onde têm lugar quer a militância quer a afeição à terra e ao homem moçambicanos, o amor ou a reflexão sobre o poema e a própria palavra.

 

Deste modo, os textos de Rui Nogar tanto se ligam ao sistema literário, por neles se manifestar a preocupação estética de “fazer” poesia, como se aproximam do documento, já que também evidenciam funções pragmáticas, relacionando o Autor com o contexto de luta pela independência ou de construção de “uma bela pátria socialista/ onde caberão todas as rimas/ que uma a uma rimarão/ com os povos do mundo inteiro/ em busca da liberdade”, como se lê na conclusão de “Génese”, poema datado de 1976 e integrado em Silêncio Escancarado.

 

Poucos são os críticos que se pronunciaram sobre esta poesia, e esses poucos restringem-se, por norma, à fase inicial da obra do poeta, que depois evoluiu com a qualidade que procurámos demonstrar noutro lugar[2]. Rui Knopfli, por exemplo, considera que Nogar se destaca apenas pelas composições “Elegia a mamana Isabel” e “Xicuembo”, datadas de 1956 e 1958, respectivamente, das quais tanto diz que “[n]ão são grandes poemas, mas são necessários” (Laban, 1998: 483) como afirma serem “[...] extremamente conseguidos [...]” (Chabal, 1994: 192). Por sua vez, Eugénio Lisboa ressalva o ocasional excesso de retórica que penaliza os textos de maior intencionalidade pragmática, mas revela apreciar a poesia de Nogar, por representar genuinamente o universo do “caniço” e ser “[...] uma poesia que conta, porque fala do universo do branco que viveu com o preto [...]” (Chabal, 1994: 158). Finalmente, Manuel Ferreira salienta o facto do poeta “[...] ter sido dos pouquíssimos a tentarem construir uma gramática poética pessoal que se fundamentava na fala dos subúrbios laurentinos ou de outras zonas urbanas [...]” (Ferreira, 1977: 80).

 

Perante estas opiniões, cremos ser necessário precisar dois aspectos:

 

i) a obra de Rui Nogar, idealizando embora uma humanidade alheia às questões de cor[3], devolve aquele universo de acordo não com o topos do “branco que viveu com o preto”, mas o contrário, tal como se pode depreender do esforço poético impresso nos poemas apontados por Knopfli ou em outros textos, como “Nove hora” ou “Fabião”, para registarmos apenas dois exemplos que se integram no mesmo quadro referencial;

 

ii) a autenticidade que o poeta imprime à representação do universo social do subúrbio de Lourenço Marques dependerá mais da escolha e organização do tema do que da reprodução da fala popular, artifício a que o Autor recorre, aliás, com muita parcimónia: afinal, aquela “gramática poética pessoal” referida por Manuel Ferreira encontra-se apenas em quatro textos[4] e, em Silêncio Escancarado, é um recurso de todo ausente.

 

Salvaguardando a hipótese de não termos manuseado todo o espólio do Autor, acreditamos, assim, que a representação da linguagem falada foi, por parte de Nogar, um artifício esporádico, embora inovador, pois corporiza uma ruptura com a poesia escrita vigente na época e, associada ao conhecimento que a afectividade e a identificação com o outro facultam, acaba por não se confundir com qualquer tentativa de caricaturar o negro, apesar da simplicidade de processos que o configura: marcas de oralidade tendentes à reprodução da pronúncia popular, não observância das regras de concordância, de utilização dos determinantes ou de ordenação sintagmática das palavras e, ainda, recurso a vocábulos das línguas bantu ou até a frases em inglês, como se observa em “Nove hora”.

 

Seja como for, se a integridade do poeta lhe ditou evitar a via poética proposta em “Xicuembo”, certo é que este poema teve impacto duradouro e, de tão convocado e antologiado[5], ficou paradigma de uma obra[6] que, pese embora a opinião de Knopfli, oferece outros exemplos “necessários” e “conseguidos”. Pena é o tempo e o espaço insistirem em lembrar-nos que o objectivo deste artigo é outro: apresentar o conto “Fabião”, texto que, dada a sua filiação modal, será único na obra de Nogar. O trabalho minucioso e atento de Michel Laban, tal como a sua generosidade, permitiu-nos (re)descobri-lo, escondido que estava numa revista desconhecida[7] do leigo que somos.

 

 

4. “Fabião” – Comentário

 

O título sugere uma narrativa estruturada em torno de uma única personagem e, de facto, a diegese resume a vida de Fabião, organizada linearmente em quatro momentos, determinados pela idade, os espaços e as ocupações: durante a infância, como aluno na missão; enquanto adulto, soldado e cliente de uma prostituta, numa passagem por “Lagoas”; depois, carregador no cais e, por fim, mineiro em terras do Rand[8]. Porém, neste sumário, ditado pela extensão própria do subgénero, Fabião não ganha nem voz nem densidade complexa: construído à medida das intenções do Autor, ergue-se como tipo representativo do universo social com que o narrador se solidariza, servindo como meio de afirmação da ideologia de que decorre a carga denunciatória que o conto transporta.

 

Como em “Nove hora”, o narrador é heterodiegético e colocado em posição de ulterioridade. Mostra-se, no entanto, mais comedido, até porque a consecução da intencionalidade que organiza o conto não depende da representação de um universo tão complexo quanto o que aquele poema narrativo configura. De qualquer modo, o texto refracta a mesma íntima ligação com o homem do “caniço”, a mesma vontade de o representar dotado da humanidade que o iguala a todos os outros e o mesmo domínio das técnicas narrativas que o faz cumprir as funções pragmáticas que o Autor lhe destinou, sem comprometer a sua literariedade.

 

Por isso, o narrador controla o processo narrativo de modo a veicular a sua adesão ao mundo da personagem e a crítica ao sistema que, em criança, lhe incutia a submissão como regra. Para tal, perturba a focalização externa, como no parênteses que corta o discurso do padre, revelando o pensamento do “mufana”[9] Fabião: “É preciso coragem. Coragem e resignação (mas que é “...signação”?)” (l. 4), ou manipula a velocidade da narrativa, com intuitos que nos parecem decorrer mais da sua subjectividade do que da concisão necessária. O quarto parágrafo, “Fabião cresceu pouco”, é disso elucidativo: sintetiza magistralmente a juventude da personagem, deixando em aberto tudo o que lhe terá acontecido para lhe limitar o crescimento. Como a caracterização física não é pertinente, resta que essa limitação se referirá ao seu desenvolvimento sociocultural, com todas as ilações críticas que de aí advêm.

 

Processo semelhante patenteia-se no segundo momento da narração, no qual tanto o espaço como a figura da prostituta fornecem o pretexto para o narrador prosseguir a caracterização da personagem, que comprova o atributo “Fabião era bom” (l. 14) mediante a sua atitude face à mulher adormecida. Porém, cremos que a funcionalidade primeira do resumo do tempo de tropa, “[...] três anos escravo de caqui, corneta e meu sargento” (l. 13) é a crítica à autoridade militar, subjacente na metáfora e confirmada pela representação da voz popular, “[s]oldado não é bom: diz moleque, diz mulher” (l. 15). Insinuada pelo narrador, quando traduz o raciocínio de Fabião: “[t]ropa é bom porque tem senhor enfermeiro que cura doença de mulher” (l. 28), cremos ler-se, também, a denúncia do elitismo do sistema de saúde.

 

Prova de que pelo narrador passam os sentidos que melhor servem a intencionalidade pragmática do conto é o facto do terceiro momento, onde se narra um ano de trabalho no cais, ser o que mais se prolonga no espaço textual, nele se dedicando apenas sete linhas ao protagonista. Com efeito, a personagem cede aí o lugar aos quatro operários vítimas de acidentes de trabalho, que o narrador relata como se fosse Fabião a fazê-lo. Pode, assim, representar aquele espaço com a autoridade de quem nele labutou, caracterizando os tipos que o configuram e sugerindo quer a sua revolta, camuflada na “[...] cantiga de contratado. Cantiga malcriado. Ah! mas a culpa é do cais. Cais não presta. E por isso cantiga é malcriado. E por isso cantiga de malcriado há-de ficar mais malcriado ainda. Muito mais”. (ll. 65-67) quer a sua raiva e dor, condensadas na atitude de Fabião que, “[...] quando saíu última vez no Porta Cinco, cuspiu com força para o chão” (ll. 70-73).

 

No nosso entender, além da crítica latente no facto de a narrativa se deixar em aberto, de modo a motivar os sentimentos adequados à possibilidade de Fabião sucumbir à doença, depois de dezasseis meses a sofrer e economizar, para “[f]azer machamba[10], palhota maticada[11] [...]” (ll. 87-88), o breve relato da passagem pelas minas serve, sobretudo, para o narrador demonstrar tanto o seu conhecimento do homem do “caniço”, notável na descrição das expectativas dos mineiros, como a sua dedicação à causa daqueles a que se refere a imagem “[t]oneladas de terra equilibram-se sobre as formigas e os homens que as imitam”[12] (ll. 75-77) e que são, como tentámos elucidar, a motivação primeira da obra do A., que refracta um imaginário construído a partir do espaço físico e humano representado, com cujo destino o poeta se compromete, exprimindo o dinamismo da construção da sua própria identidade.

 

 

5. “Fabião” : o texto

 

O padre da missão falou em Deus. Deus: irmão bom. Falou nos anjos: todos amigos. Falou no céu: oh! céu bom, muito bom. Só não falou nos homens. Homem? Muito complicado mesmo. Todo gente há-de aprender sozinho. É preciso coragem. Coragem e resignação (mas que é “...signação”?). Vida é má. Muito má. Homem também. É preciso aprender sòzinho. Ser bom. Ter bom coração. Quando outra gente faz mal a você é preciso esquecer. É preciso perdoar esse gente. É preciso sofrer. É preciso...

 

Fabião, mufana ainda, o boca muito aberto, os olho muito aberto, mexeu cabeça, mexeu cabeça – compreendeste sim senhor Padre...

 

Padre José passou a mão pela testa, onde as teimosas gotas de suor desfizeram-se, escorrendo por entre os dedos curtos e grossos.

 

Fabião cresceu pouco.

 

Foi tropa: três anos escravo de caqui, corneta e meu sargento. Três anos em que toda mulher chunguila e todo moleque tinha medo do seu cinturão. Fabião era bom. Mas quem sabia? Fabião era soldado. Soldado não é bom: diz moleque, diz mulher. Fabião era bom, mas só ele sabia, mais ninguém.

 

Um dia foi na “Lagoas”. Arranjou mulher de todo gente. Esse mulher estava grosso. Com certeza não viu caqui, não viu cinturão, nem sequer viu Fabião. Sentiu aquele braço forte que segurou ela quando ia cair na escada da cantina. Depois, aquele braço forte seguiu ela até colchão.

 

Mulher está dormir. Ele não sabe ainda como ela chama. Também não interessa. Ele quando voltar ela não conhece ele. Mas ele também não há-de voltar. Palavra!... Mas Fabião está a gostar dela. [É] pena, dinheiro é pouco. Bem! Fabião segurou dinheiro todo, deixou no colchão e foi embora. Mulher de todo gente quando acordar há-de pensar dinheiro caíu do céu. Fabião riu. Lembrou Padre José quando falou no céu. Ih! Céu bom, muito bom mesmo!

 

Três dia passou. Enfermeiro molungo deu injecção a Fabião porque doença veio. Enfermeiro molungo é bom. Tropa é bom porque tem senhor enfermeiro que cura doença de mulher.

 

Carregador no cais: um ano contratado. Um ano para perder 4 (quatro) amigos. Um ano enorme e pesado, cheio de lembrança de Padre José que disse: é preciso sofrer. Ah! Padre José!... Padre José!

 

Primeiro: Salvador. Caíu no porão de “Congo Maru”. Deitou sangue da boca e dos ouvidos. Não disse mais nada. Também, quando Salvador falava, pouco gente compreendia. Ele falava outra língua. De muito longe. Agora, palavra! todo gente parece querer compreender Salvador. Agora todo gente gostava saber falar com Salvador. Agora.

 

Depois Agostinho e Cipriano na mesma semana. Ficou parecia papa de farinha. Assim mesmo. Só pele, com osso pisado lá dentro.

 

Agostinho estava trabalhar debaixo de guindaste n.º 10. Cabo que segura aquele saco todo partiu. Era muito saco. Cheio de cimento. Agostinho não teve tempo. Não fugiu. Ficou parecia tinha cola nos pés.

 

Quando pedreiro vai fazer casa com aquele cimento, há-de ficar casa com pouco sangue de Agostinho. Sangue e vida e medo de Agostinho.

 

Doze e meia. Cipriano está dormir perto chapa de aço. Muito chapa de aço em cima doutro chapa de aço. Passou combóio perto. Chão fez assim assim. Chapa de aço que estava em cima mexeu, mexeu e caíu. Mesmo na cabeça de Cipriano. Cipriano não acordou nunca mais. Ele tinha cabeça grande e duro. Quando jogava borracha [sic] dava cabeçada com força. Maningue força. Partia sempre cabeça de outro gente. Cipriano nunca mais vai jogar porrada. Nunca mais vai dar cabeçada.

 

Quando estava quase acabar contrato de Fabião, foi Saúl.

 

Saúl, capataz indígena. Não gritava muito. Não chatiava muito. Carregador gostava dele.

 

Um dia estava entre dois vagão. Via serviço de contratado. Cantava mesma cantiga de contratado, ih! cantiga de contratado é malcriado. Muito malcriado mesmo. Diz coisa que não pode dizer. Por isso contratado gostava daquele cantiga. Por isso trabalha bem com cantiga. Lingote de cobre pesa menos. Vida custa menos.

 

Saúl cantava muito bem. Ali perto estava máquina vaivem com manobra. Máquina foi. Escondeu atrás de armazém L. Depois máquina veio. Faz barulho. Não deixa ouvir cantiga. Agulheiro não pode segurar máquina. Voz de Saúl, voz de contratado, voz de máquina é um só. Tudo canta mesma cantiga. Máquina galgou cicatriz de linha. Entrou no caminho errado. Saúl canta maningue bem mesmo! Máquina apanhou primeiro vagão da frente. Chocou. Empurrou. No meio Saúl canta ainda. Vagão correu, agarrou barriga de Saúl – cantiga parou agora mesmo no boca de Saúl – e engatou noutro vagão. Barriga de Saúl engatou também. Cantiga parou. Todo gente correu. Ficou ver tripa de Saúl que baloiça pendurada no engate do vagão. Ambulância gritou e veio levar voz de Saúl. Nunca mais ele vai cantar cantiga de contratado. Cantiga malcriado. Ah! mas a culpa é do cais. Cais não presta. E por isso cantiga é malcriado. E por isso cantiga de malcriado há-de ficar mais malcriado ainda. Muito mais.

 

Fabião quando saíu última vez no Porta Cinco, cuspiu com força para o chão. Fazia frio. Fabião trazia no corpo farrapos de ganga azul desbotada. O céu lá longe era azul também. Azul desbotado.

 

Mineiro do Rand: 16 meses soterrado. Dezasseis meses de medo: o grisú, monstro que não se vê, não se cheira, não se pressente a estoirar a todo o momento. Dezasseis meses! Quem sabe se o amanhã não o é para Fabião? Toneladas de terra equilibram-se sobre as formigas e os homens que as imitam. Num segundo podem transformar-se numa imensa sepultura. Todos sabem isso. Mas são dezasseis meses necessários para Fabião e seus companheiros. Libras, pounds irão comprar amanhã casacos de pele de leopardo, calças de bombazine, peúgas e meias de futebol das mais berrantes, sapatos fortes, grosseiros, etc. etc. E depois, lá na terra, a certeza duns braços de mulher.

 

Fabião economiza. Não compra máquina de costura em quinta mão, nem bicicleta sem roda, nem outra porcaria. Vai fazer palhota maticada. Pintar porta e janela verde com dois risco amarelo. Machamba pequena. Milho, amendoim e mandioca.

 

Dez meses passou. Fabião não pode dormir. Tosse não deixa. Ele de manhã cedo vai fazer curativo. Depois vai outra vez buscar tosse lá dentro da mina. Falta pouco para acabar contrato. Tosse não pára. Fabião quando voltar para terra não vem sòzinho. É capaz mesmo, esse coisa que acompanha ele, não deixar Fabião chegar no terra. Fazer machamba, palhota maticada com porta e janela verde com dois risco amarelo, semear milho, amendoim, mandioca, arranjar mulher, gastar libra, pound.

 

 

 

 

 

Referências bibliográficas

 

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. 8ª ed.. Coimbra: Almedina, 1999.

ALCÂNTARA, Adriano. Topografia de um Eu Sitiado. Lisboa: Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2003, 137 p.

CASSAMO, Suleiman. Le Retour du Mort. Nouvelles traduites du portugais (Mozambique) par Isabel Vale Ferreira et Annick Moreau. Paris : Editions Chandeigne / Unesco, 1994. Glossário Ronga – Português, p. 139-141.

CHABAL, Patrick. Vozes Moçambicanas, Literatura e Nacionalidade. Lisboa: Veja. 1994. Rui Nogar, p. 160-182.

FERREIRA, Manuel. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, volumes1 e 2. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1977.

LABAN, Michel. Moçambique – Encontro com escritores, volumes I, II e III. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1998.

LISBOA, Eugénio. Portugaliæ Monumenta Frivola. Lisboa: Universitária Editora, 2000.

NOGAR, Rui. Silêncio Escancarado. Lisboa: Edições 70, Lda; Maputo: INLD, 1982, 94 p. Colecção Autores Moçambicanos, nº 7.

SARAMAGO, José. Memorial do Convento, 16ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1986.

SAÚTE, Nelson. Os habitantes da Memória. Praia-Mindelo: Embaixada de Portugal – Centro Cultural Português, 1998. Rui Nogar, p. 259-282.

 

 

 


[1] Leia-se, a este propósito, os critérios definidos em Michel Laban, “A Língua Portuguesa de Moçambique através da Literatura – Reflexões sobre a elaboração de um inventário das particularidades do português de Moçambique através da literatura”, 16 de Novembro de 2008. Disponível em http://group.xiconhoca.com/2008/11/16/a-lingua-portuguesa-de-mocambique-atraves-da-literatura-michel-laban/ (consultado a 27/12/2009).

[2] Alcântara, Adriano, Topografia de um Eu Sitiado, Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2003.

[3] O que se nota, p.e., em “coragem          agora / é não ser negro / é não ser branco / é ser um homem / apenas um homem / um homem pleno / aqui em áfrica / aqui em moçambique”, conclusão do poema “Da metamorfose quotidiana”, datado de 1969 e incluído em Silêncio Escancarado (os espaçamentos e a ausência de maiúsculas são opções estéticas do Autor).

[4] Nos já referidos “Xicuembo”, “Nove hora” e “Fabião” e, ainda, embora fugaz, em “Tempo”, poema incluído por Fátima Mendonça e Nelson Saúte na sua Antologia da Nova Poesia Moçambicana (Maputo, AEMO, s.d. – 1993?), p. 375-376.

[5] Razão tem Eugénio Lisboa, quando, sobre as antologias de literaturas africanas de língua portuguesa diz que “[t]anta é a insistência num elenco reduzidíssimo de poemas, que se é tentado a pensar que [...] os antologiadores se antologiam [...] uns aos outros.” (Lisboa, 2000: 252).

[6] Como poderá ter influenciado a literatura moçambicana, uma vez que, se não frutificou na poesia, a experimentação literária sobre a linguagem popular culminou, a despeito de Rui Nogar, na escrita de Mia Couto, cujo volume Vozes Anoitecidas (Maputo, AEMO, 1986) foi alvo da crítica do poeta, que acusou o escritor de se aproveitar ilegitimamente da maneira do povo se exprimir em português.

[7] Bandarra, artes e letras ibéricas, ano VI, nº 67, Porto, Dezembro de 1958, p. 29-30.

[8] “Witwatersrand, complexo industrial dominado pela cidade de Johanesburgo, próximo dos jazigos de ouro, ferro e carvão.” (Cassamo, 1994: 148).

[9] Rapaz, miúdo.

[10] Horta, terreno cultivado.

[11] De “maticar”: revestir as paredes com barro ou matope (lama)”.

[12] Registe-se o facto de, anos depois, também José Saramago se servir de idêntica aproximação entre “homens” e “formigas”: “[...] não haverá diferença nenhuma entre cem homens e cem formigas, leva-se isto daqui para ali porque as forças não dão para mais [...] até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.” (Saramago,1986: 118).

 

Pour citer cet article:


Alcântara, Adriano. "Uma descoberta de Michel Laban : “Fabião”, de Rui Nogar", Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 6, printemps-été 2010, URL: http://www.pluralpluriel.org/index.php?option=com_content&view=article&id=239:uma-descoberta-de-michel-laban-fabiao-de-rui-nogar&catid=75:nd-6-litteratures-africaines-de-langue-portugaise&Itemid=55