Numéro 2: comptes rendus - La littérature portugaise contemporaine: le plaisir du partage

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Numéro 2: comptes rendus
La littérature portugaise contemporaine: le plaisir du partage
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La littérature portugaise contemporaine: le plaisir du partage

 

 

ESTEVES, José Manuel da Costa, La littérature portugaise contemporaine: le plaisir du partage, Paris: L’Harmattan, 2008, 196p.


 

 

José Manuel da Costa Esteves (JMCE) acaba de publicar, nas edições Harmattan, uma obra sobre literatura portuguesa contemporânea: La Littérature portugaise contemporaine – le plaisir du partage, um contributo precioso no seio das escassas publicações nesta matéria, em França.

 

 

Professor de Língua e de Literatura Portuguesa na Universidade de Paris Ouest Nanterre La Défense onde é responsável pela Cátedra Lindley Cintra do Instituto Camões, JMCE é especialista em literatura portuguesa contemporânea e autor de vários estudos sobre esta matéria publicados em revistas da especialidade.

 

A obra que agora publica reúne nove ensaios sobre autores portugueses da segunda metade do século XX: Carlos de Oliveira, Maria Judite de Carvalho, José Terra, Olga Gonçalves, Mário Cláudio e Maria Isabel Barreno; bem como uma entrevista com o escritor Urbano Tavares Rodrigues, e um conto deste autor.

 

Esta entrevista, o último capítulo do livro, apresenta um duplo interesse. Primeiro porque o entrevistado, figura maior da literatura portuguesa contemporânea, ele próprio professor universitário de Literatura, traça um breve panorama da literatura portuguesa pós revolução de 25 de Abril de 1974 até aos nossos dias, uma literatura que o escritor considera simultaneamente marcada pelo regime ditatorial e liberta dele e da censura que o caracterizava. Urbano Tavares Rodrigues aborda assim o universo em que surgiram as obras que José Manuel Esteves escolheu para dar a conhecer ao público francês. Por outro lado, porque os textos que JMCE reuniu nos nove capítulos que precedem a entrevista têm em comum o facto de reflectirem sobre obras marcadas de forma mais ou menos profunda pela situação política e social vivida em Portugal antes da revolução de 1974, obras onde há uma tomada de posição, nalgumas de forma clara, noutras mais metafórica, sobre a pobreza, a decadência ou a falta de liberdade que se vivia no país, durante o regime de Salazar.

 

O primeiro escritor que é objecto de estudo, Carlos de Oliveira, merece do autor uma atenção particular, sendo matéria dos três primeiros capítulos. A obra deste escritor, ancorada na região da Gândara, espaço da sua infância, torna-se, no dizer de JMCE uma metáfora do país. A vida dos habitantes desta região funde-se na paisagem, fazendo-se e desfazendo-se na pobreza e instabilidade do solo e do clima. JMCE sublinha a escrita depurada com que o autor de Casa na Duna reconstitui este universo, transfigurando-o assim em universo ficcional, uma escrita incisiva “como uma lâmina afiada que penetra na carne”(p.14). Refere ainda o trabalho de reescrita a que Carlos de Oliveira procede na procura de rigor, de pureza e perfeição, concluindo serem estas as características que deixam a obra incólume à passagem do tempo, apontando para a intemporalidade. Por outro lado, uma escrita assim depurada aproxima-se da sobriedade e aridez do universo descrito, funcionando no entanto como um elemento vivo, um sopro, uma pulsação - como lhe chama JMCE (p.52) - que emerge do universo de destruição no qual se movem as personagens.

 

Em jeito de complemento ao estudo da obra do escritor, o autor leva-nos por outros caminhos, por outras linguagens, outras estéticas dando-nos a conhecer aberturas possíveis a partir da obra literária. Propõe-nos uma leitura do filme Uma Abelha na Chuva, de Fernando Lopes, uma adaptação cinematográfica da obra homónima de Carlos de Oliveira. O realizador não transpõe a obra, antes procede a uma depuração da diegese, abandonando personagens e episódios secundários o que, segundo JMCE, ao conservar apenas o osso da obra, mais não faz que realçar o seu carácter universal. Ao introduzir no filme sequências estranhas à obra do romancista, o cineasta constrói e desconstrói a obra de Carlos de Oliveira, lê-a e distancia-se dela, transfigura-a e sugere para além dela.

 

O quarto capítulo é dedicado à obra de Maria Judite de Carvalho, escritora que cultivou essencialmente as formas breves da narrativa como a crónica, o conto e a novela e que tem merecido, desde há alguns anos, uma atenção particular e um estudo cuidado da parte de JMCE.

 

Paredes-meias com o rigor e exaustividade de informações sobre traduções, teatralização de textos, trabalhos de investigação de que a obra da escritora foi objecto, publicações de crónicas e contos dispersos por periódicos, indicações sobre a adopção da obra como objecto de estudo nos programas dos concursos de recrutamento de professores, em França (CAPES, Agrégation), decorre a leitura e análise feita por quem é um dos melhores conhecedores do universo de Maria Judite de Carvalho.

 

Uma obra composta de fragmentos do quotidiano de pessoas comuns, oriundas quase sempre da pequena burguesia urbana. Histórias de personagens dilaceradas por conflitos interiores que vivem situações “de exílio, de solidão, de incomunicabilidade extrema” (p.73) e onde o tempo é certamente o grande personagem da obra. JMCE realça a coerência temática que atravessa a obra e faz dela “uma espécie de inventário de situações sem saída” (p.74). Sublinha ainda a omnipresença do tempo psicológico que entremeia com o tempo cronológico, este último irreversível, apesar das tentativas das personagens para o ludibriar, apesar da presença obsessiva da morte, quer física, quer figurada em diversas formas de renúncia.

 

JMCE realça a coerência temática que atravessa a obra da autora, sublinhando-lhe a originalidade e ao mesmo tempo os traços da sua pertença a uma escrita identitária, que ele sintetiza numa frase magistral: “Este olhar melancólico e profundamente desencantado entronca na mais pura tradição literária portuguesa, na qual o peso de um destino irreparável se alia a uma dimensão lírica, marcada pelo canto da solidão, que tende a suspender o curso do tempo cronológico” (p.73-74). Contextualizado o conjunto da obra e enunciadas as suas linhas de força, JMCE faz uma leitura de Tanta Gente Mariana, livro inaugural da obra da escritora composto de uma novela epónima e de sete outros contos.

 

Depois, e tal como já fizera para Carlos de Oliveira, JMCE propõe um olhar e uma abordagem da obra de Maria Judite de Carvalho através do olhar de outro criador, neste caso a escritora brasileira Lygia Fagundes Telles, reflectido na correspondência desta endereçada à autora de Seta Despedida. Aí se fala de admiração e do desejo de reescrita da escrita do outro, apreciações, confissões e dizeres que permitem novos olhares sobre a obra de Maria Judite de Carvalho. Como complemento deste olhar, JMCE refere e comenta o interessante estudo comparativo da obra das duas escritoras, feito por Elza Carrozza.

 

Na análise que faz de Ora esguardae de Olga Gonçalves, JMCE fala de como a autora transforma a palavra colectiva em discurso narrativo, ficcionando assim a verdade dos acontecimentos. Esta obra de Olga Gonçalves constitui um olhar e uma escrita singulares sobre a revolução de Abril de 1974, feito de conversas, de testemunhos e vivências anónimas na cidade de Lisboa. O título é uma interpelação ao leitor que a autora foi buscar a Fernão Lopes, a uma obra também ela sobre o fervilhar desta mesma cidade, aquando da revolução de 1385. O contexto deste momento histórico é dado com rigor em nota de rodapé. JMCE mostra-nos como o sujeito-narrador parte à descoberta da história da cidade, um percurso que se vai tornando também um percurso de memórias, um ir ao encontro de si próprio.

 

Nas páginas dedicadas a José Terra, após referência aos estudos publicados sobre a obra deste poeta, o autor põe em relevo a sua dimensão de tradutor, para depois realçar a importância da sua obra poética no contexto da poesia portuguesa dos anos cinquenta. Um valor a que se acrescenta a sua resistência às correntes artísticas da época, a sua capacidade em recuperar a tradição clássica e em renovar a linguagem poética.

 

No romance Tocata Para Dois Clarins de Mário Cláudio, Maria e António simultaneamente personagens e narradores, recordam um período das suas vidas, que decorre entre 1936 e 1941, compreendendo o noivado, o casamento e o nascimento do filho, período que na história do país corresponde à consolidação do regime de Salazar. Os episódios da vida do casal surgem firmados no contexto histórico nacional e internacional e chegam-nos pela voz de Maria e de António, alternadamente, em capítulos separados, através da memória e da leitura de cada um deles.

 

JMCE conduz o leitor através dos vários capítulos do romance mostrando como, pouco a pouco, de forma magistral, socorrendo-se de uma ironia subtil, o romancista reconstitui a ideologia do Estado Novo, o “Portugal fechado, isolado e folclórico” (p.146) no qual os narradores são simples marionetas.

 

O nome de Maria Isabel Barreno evoca desde logo o famoso livro Novas Cartas Portuguesas que redigiu em colaboração com Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, obra que lhes valeu um processo em tribunal por parte do regime salazarista, mas também uma notoriedade além fronteiras. Escritora e ensaísta, Maria Isabel Barreno é “uma das vozes mais originais da literatura portuguesa contemporânea” (p. 151). JMCE começa por dar conta, de forma sintética, das temáticas abordadas nas principais obras da escritora para depois se deter em O Círculo Virtuoso, um livro de contos publicado em 1996. Neste breve visitar da obra de Maria Isabel Barreno, JMCE pretende demonstrar que os contos da autora de Contos Analógicos são uma constante procura de resposta à pergunta nunca formulada mas subjacente a todos eles sobre o sentido das coisas insignificantes e triviais e o sentido da vida. Uma escrita que é uma permanente interrogação do real, da realidade das coisas, mostrando-nos o que desconhecemos ou ignoramos. O Círculo Virtuoso é um conjunto de cinco contos insertos numa temática do quotidiano e eivados de uma dimensão humorística onde se retomam histórias, referências e personagens, criando assim, no dizer de JMCE, uma unidade que reenvia para o círculo. O círculo da história que se conta à criança, da história de amor, repetida e ancestral que nos chega de tempos imemoriais num eterno recomeçar.

 

O livro de JMCE é, a vários títulos, uma obra de grande mérito e interesse para os estudos literários. Nele se reflecte sobre a totalidade da obra de cada um dos escritores escolhidos para que o texto, que é objecto de estudo, aí encontre a sua dimensão e importância. Em cada um dos ensaios, o autor traça a biografia e dá conta da bibliografia, dos prémios, traduções ou estudos sobre a obra do escritor em causa. A estas informações, fornecidas em texto prévio ou em nota de rodapé, acresce uma preocupação constante em enriquecer e contextualizar a análise, quer do ponto de vista histórico quer literário. Trata-se de um trabalho de grande originalidade e saber, que permite ao leitor mais ambicioso avançar no caminho da descoberta e do estudo. É assim que, pondo ao dispor do leitor conhecimentos e afectos, fruto de uma vida dedicada ao amor das letras, numa escrita eivada de rigor e de uma enorme sensibilidade, JMCE entende o “prazer da partilha”.

 

Adelaide Cristóvão

Université Paris 8

 

 

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