Um italiano na obra de João Guimarães Rosa

Imprimer

 

 

Adelaide Caramuru Cezar

Universidade Estadual de Londrina

 

 

“Toda vida gostei demais de estrangeiro”
(João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas, 1956)

 

 

Introdução


Vários estrangeiros são personagens de João Guimarães Rosa. É o caso do espanhol Ramiro (“Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo”, Sagarana, 1946); do alemão Seo Olquiste, ou Alquiste (“Recado do morro”, Corpo de baile, 1956); do turco Seo Assis Wababa; do alemão Emílio Wusp (Grande sertão: veredas, 1956); do italiano Seo Giovânio (“O cavalo que bebia cerveja”, Primeiras estórias, 1962); do não denominado extra-terrestre (“Um moço muito branco”, Primeiras estórias, 1962); do chinês Yao Tsing-Lao (“Orientação”, Tutaméia (Terceiras estórias), 1967); dos ciganos Güitchil, Rulu, Constantina, Demétria, Aníssia (“Faraó e a água do rio”, Tutaméia (Terceiras estórias), 1967), Prebixim, Lhafofo, Busquê (“O outro ou o outro”, Tutaméia (Terceiras estórias), 1967); Vai-e-Volta, Zé Voivoda, Cheirolo, Manjericão, Gustuxo, Florflor (“Zingaresca”, Tutaméia (Terceiras estórias), 1967); dos japoneses Kachimitsu, Setsuo Sakamota, Takeshi Kumoitsuru (“Cipango”, Ave, palavra, 1970). Estes personagens estrangeiros aparecem em seus relacionamentos com homens simples do interior do Brasil. São estes homens simples que, na maioria das vezes, efetivam o ato de narrar seus encontros com os estrangeiros, registrando positivamente a alteridade.

 

Este é o caso de “O cavalo que bebia cerveja”. Quem conta a estória é Reivalino Belarmino. Trata-se do relato de uma aprendizagem. O narrador em primeira pessoa conta como sua aversão a Seo Giovânio, italiano que se instalou em sua região por ocasião da espanhola[1], ou seja, em 1918, foi superada.

 

O tempo da narração é o de um relato oral ininterrupto direcionado a um narratário não nominado. Este é um procedimento bastante comum na obra rosiana, bastando lembrar Grande sertão: veredas. Por sua vez, o tempo da diegese presente em “O cavalo que bebia cerveja” abarca uma sucessão de fatos iniciada em 1918, não se conhecendo, no entanto, sua duração, uma vez que o momento final da estória não é datado.

 

Não se pode precisar com segurança o espaço em que a estória ocorre. Não se trata do sertão mineiro, uma vez que lá há a lei registrada através da presença de um subdelegado, seo Priscílio, a dialogar com membros do Consulado Italiano; há a igreja a cuidar do badalar dos três dobres a anunciar a morte de um cristão; há a farmácia onde os remédios da mãe do narrador, custeados pelo italiano, são comprados. Não se trata, pois, do costumeiro sertão rosiano, considerando-se a definição oferecida por Riobaldo em Grande sertão: veredas (Rosa, 2001: 24): “Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado de arrocho de autoridade”. O espaço da diegese de “O cavalo que bebia cerveja” é duplo: (a) uma chácara próxima de uma cidade brasileira interiorana; (b) a cidade interiorana, onde Reivalino Belarmino comunica ao subdelegado e aos membros do Consulado Italiano o que ocorre na chácara de Seo Giovânio. O espaço mais constante é o da chácara. Nela há uma casa grande, de muitos quartos, estando, no entanto, conforme revela o narrador em primeira pessoa, “meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa” [2]. Além de voluntariamente estar ocultada por muitas árvores, a casa está sempre fechada e seu proprietário nela se adentra apenas para dormir: “almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta” (p. 83). A chácara é espaço de Seo Giovânio, de Reivalino Belarmino, de sua mãe, por vezes, de Seo Priscílio, o subdelegado, que a ela vai para fiscalizar o comportamento do italiano. A cidade interiorana, segundo espaço no qual ocorre a diegese, é espaço de Seo Priscílio, dos membros do Consulado Italiano, que a ela vêm em busca de informações acerca do italiano, é ainda espaço de Reivalino Belarmino, quando a ela, à cidade, se dirige a fim de praticar delação do comportamento de Seo Giovânio e receber por este ato a esperada gratificação.

 

O espaço da narração não se apresenta definido. Sabe-se apenas que ela não ocorre na chácara nem sequer na cidade que lhe está próxima. Isto porque o narrador conta que, depois do enterro de Josepe, irmão de Seo Giovânio, foi-se embora da região para não mais retornar e que apenas à distância soube do desfecho dos fatos, tomando as devidas providências:

 

Não avistei mais meu Patrão. Soube que ele morreu, quando em testamento deixou a chácara para mim. Mandei erguer sepulturas, dizer as missas, por ele, pelo irmão, por minha mãe. Mandei vender o lugar, mas, primeiro, cortarem abaixo as árvores, e enterrar no campo o trem, que se achava, naquele referido quarto. Lá nunca voltei (p. 88).

 

Relacionamento de Reivalino Belarmino com o narratário

 

“O cavalo que bebia cerveja” é uma narrativa bastante curta: seis páginas e quatro linhas; quatorze parágrafos. Nela, no entanto, fazem-se presentes vinte e dois pontos de interrogação. A função deste sinal de pontuação reside em (1) marcar a situação dialógica entre narrador e narratário no presente da narração; (2) marcar as dúvidas do narrador no presente de seu relato no que concerne ao que verdadeiramente ocorreu no momento da estória contada; (3) registrar as palavras dos personagens no presente de seu relato tal qual elas ocorreram no passado.

 

Assim sendo, depois de tanto falar de seu mal-estar em relação a Seo Giovânio, o narrador conta que dele recebeu dinheiro para comprar os remédios da mãe. Explica seu comportamento a seu interlocutor através de oração interrogativa: “Aceitei; quem é que vive de não?” (p. 84). Da mesma forma, outras explicações semelhantes são registradas através de orações interrogativas: “Tudo, para tirar tradição do homem, queriam saber, em pautas ninharias. Tolerei que sim; mas nada não fornecendo. Quem sou eu, quati, para cachorro me latir?” (p. 85). É ainda a mesma situação presente em “Marca de escravo em perna dele, não observei, nem fiz por isso. Sou lá serviçal de meirinho-mor, desses, excogitados, de tantos visares? (p. 85). Oferece informações através de oração interrogativa: “Ah, o carcamano queria se birbar de esperto; e eu não era mais?” (p. 86).

 

Oito vezes o narrador, relatando no presente fatos do passado, registra sua atual incompreensão dos mesmos através de oração interrogativa: (1) “Por derradeiro, estava meio estramontado, soubesse da vinda dos de fora?” (p. 85); (2) “Por detrás de alguma daquelas portas, pressenti bafo de presença – só mais tarde?” (p. 86); (3) “Demais que, uns dias depois, se soube de ouvidos, tarde da noite, diferentes vezes, galopes no ermo da várzea, de cavaleiro saído da porteira da chácara. Pudesse ser? (p. 86); (4) “Só aquela divagação, que eu não acabava de entender, para dar razão de alguma coisa: se ele tivesse, mesmo, um estranho cavalo, sempre escondido ali dentro, no escuro da casa?” (p. 86); (5) “Me mandou buscar o cavalo: o alazão canela-clara, bela-face. O qual — era de se dar fé? — já avançou, avispado, de atreitas orelhas, arredondando as ventas, se lambendo.” (p. 86); (6) “Quando era que tinha sido ensinado, possível? Pois, o cavalo ainda queria mais e mais cerveja.” (p. 86); (7) “Como podiam ter trazido aquilo, ou mandado vir, e entrado ali acondicionado?” (p. 87); (8) “Mas eu não tirava o sentido disto: e os outros quartos, da casa, o atrás das portas? Deviam ter dado a busca por inteiro, nela, de uma vez” (p. 87).

 

A estória vai sendo relatada até que, em determinado momento aparece a seguinte interrogação: “— Perigoso, para mim? — ah, ah. Pelo que, vá, em sua mocidade, podendo ter sido homem. Mas, agora, em pança, regalão, remanchão, somente quisesse a cerveja — para o cavalo.” (p. 85). A interrogação pressupõe a pergunta do narratário no que diz respeito à periculosidade de Seo Giovânio, revelando, desta forma, a presença do outro, o interlocutor. Há ainda nesta mesma passagem registro da caçoada do narrador no presente da narração no que diz respeito à explicação que lhe foi oferecida no passado pelo italiano no que concerne à cerveja oferecida ao cavalo. Este tom de caçoada proveniente do registro do riso do narrador no presente da enunciação já fora utilizado antes: “Ele mesmo, figuro que raras vezes por lá se introduzia, a não ser para dormir, ou para guardar a cerveja — ah, ah, ah — a que era para o cavalo” (p. 84).

 

Na tentativa de ser fiel ao passado relatado, o narrador reproduz as falas de Seo Giovânio no momento de seu relato oral: (1) “Passou muito a mão na testa: — ‘Lei, quer ver?’ (p. 86); (2) “— ‘Irivalíni, pecado que nós dois não gostemos de cerveja, hem?’” (p. 87); (3) “— Irivalíni...que esta vida... bisonha. Caspité?’” (p. 88); (4) “— ‘Andamos, Irivalíni, contadino, bambino?’” (p. 88). Na reprodução da fala de Seo Giovânio tal qual ocorreu no passado, registra, inclusive, a maneira como este, “naquela língua de bater ovos” (p. 84) o denominava: Irivalíni. Reproduz, ainda que não exatamente, as palavras do subdelegado Seo Priscílio em seu interrogatório dirigido ao italiano: “Seo Priscílio apareceu, falou com seo Giovânio: se que estórias seriam aquelas, de um cavalo beber cerveja?” (p. 86).

 

Além dos pontos de interrogação a marcarem a oralidade da narrativa, faz-se ainda necessário destacar os pontos de exclamação, nove, sendo estes, em sua grande maioria, registros de indignação do narrador frente ao que narra. De início, marca a ira que o estrangeiro despertava no narrador: “Cabrão!” (p. 84), “Tomara ele me xingasse!” (p. 84), “ — Tu espera, porco, para se, mais dia menos dia, eu não estou bem aí, no haja o que há!” (p. 84). Depois, o ponto de exclamação registra a modificação de postura do narrador e se encontra na estrutura textual a ordenar que não mais seja solicitado para delação do comportamento do italiano: “Saí, então, fui no Seo Priscílio, falei: que eu não queria saber de nada, daqueles, o de fora, de coscuvilho, nem jogar com pau de dois bicos!” (p. 87), “Se tornassem a vir, eu corria com eles, despauterava, escaramuçava — alto aí! — isto aqui é Brasil, eles também eram estrangeiros.” (p. 87). Há ainda dois casos que marcam a surpresa, no passado, do narrador frente ao que viu. O primeiro deles é quando se depara com o cavalo bebendo cerveja: “O qual — era de se dar a fé? — já avançou, avispado, de atreitas orelhas, arredondando as ventas, se lambendo: e grosso bebeu o rumor daquilo, gostado, até o fundo; a gente vendo que ele já era manhudo, cevado naquilo!” (p. 86). O segundo caso de surpresa é quando se depara com o cavalo empalhado escondido em um dos quartos do casarão: “Os quartos? Foi direto a um, que estava duro de trancado. O do pasmoso: que, ali dentro, enorme, só tinha o singular — isto é, a coisa a não existir! — um cavalão branco, empalhado.” (p. 87). Há ainda a reprodução das palavras de Seo Giovânio, palavras estas que agradam o narrador por marcarem a aprendizagem da malandragem: “— ‘Irivalíni, que estes tempos vão cambiando mal. Não laxa as armas!’ Aprovei. Sorri de que ele tivesse as todas manhas e patranhas.” (p. 86). Como ocorreu com o ponto de interrogação, o de exclamação também se aplica à reprodução da fala de um dos personagens tal qual ocorreu no passado. É o caso da fala do subdelegado: “Só pronunciou: que queria revistar os cômodos, pela justiça!” (p. 86-87).

 

Reivalino Belarmino revela-se a seu narratário um ser pouco sociável, impondo aos demais personagens distanciamento. Está sempre a enaltecer seu comportamento agressivo, sendo tal comportamento por ele visto como dado diferenciador positivo, conforme se lê nas seguintes passagens: “Sabia que sou sem temor, em meus altos, e que enfrento uns e outros, no lugar a gente pouco me encarava.” (p. 84), “Sou para sacar faca e arma.” (p. 87). A negação é uma constante em seu discurso. É reiteradamente usada na caracterização que faz de si mesmo no presente da narração: “não gosto de perguntar” (...) “não sou de perdoar”, “Sou de nem palavras.” (p. 84-85). Seu conhecimento é bastante limitado. Nada sabe, por exemplo, das grandes guerras do século XX, isto porque não associa o nome que Seo Giovânio atribuiu a seu cão e o desprezo que tem pelo mesmo à figura do ditador italiano Benito Mussolini (1883-1945):

 

Ele se rodeava de diversos cachorros, graúdos, para vigiarem a chácara. De um, mesmo não gostasse, a gente via, o bicho em sustos, antipático — o menos bem tratado; e que fazia, ainda assim, por não se arredar de ao pé dele, estava, a toda a hora, de desprezo, chamando o endiabrado do cão: por nome “Mussulino” (p. 83).

 

O conhecimento que detém é popular, como bem registram expressões como “Quem sou eu, quati, para cachorro me latir?” (p. 85), “Sou lá serviçal de meirinho-mor, desses, excogitados de tantos visares?” (p. 85), “Ah, o carcamano queria se birbar de esperto; e eu não era mais? (p. 86), “Seja que eu não ia lembrar esse rumo a eles, não sou mestre de quinaus.” (p. 87). Seu conhecimento oriundo do universo popular é ainda revelado quando estabelece comparação entre o cavalo de Seo Giovânio e o cavalo de São Jorge:

 

O do pasmoso: que, ali dentro, enorme, só tinha o singular – isto é, a coisa a não existir! – um cavalão branco, empalhado. Tão perfeito, a cara quadrada, que nem um de brinquedo, de menino; reclaro, branquinho, limpo, crinado e ancudo, alto feito um de igreja – cavalo de São Jorge. Como podiam ter trazido aquilo, ou mandado vir, e entrado ali acondicionado? (p. 87).

 

Além de ser pouco sociável, primitivo, Reivalino Belarmino narrador revela em sua fala ser ainda bastante preguiçoso, chegando a enaltecer seu trabalho devido ao fato de nele poucas tarefas dever efetivar: “Não me deu nem meio serviço por cumprir, senão que eu era para burliquear por lá, contanto que com as armas” (p. 84).

 

Ainda que não goste de trabalhar, há em seu relato constante referência a dinheiro. Conta, sem qualquer sentimento de vergonha, que recebia do italiano dinheiro quando lhe ia buscar cervejas: “ele me indenizava o dinheiro, me gratificando.” (p, 83). Conta que recebia dos italianos do Consulado dinheiro em troca de informações acerca de Seo Giovânio: “E os de fora, me pegando à parte, puxaram por mim, às muitas perguntas. Tudo, para tirar tradição do homem, queriam saber, em pautas ninharias. (...) Mas, me pagaram, o bom quanto.” (p. 85). Relata ainda, despudoradamente, que recebeu dos mesmos italianos mais dinheiro quando outras informações lhes ofereceu acerca do italiano fugitivo: “Mais me pagaram.” (p. 86). Seu julgamento do outro está concorde com seu relacionamento com o dinheiro. Assim, ao relatar que o subdelegado, Seo Prisílio, exigiu de Seo Giovânio o descobrimento do corpo do falecido irmão, Josepe, deduz: “figuro que os de fora a ele tinham prometido dinheiro” (p. 88).

 

As ações são, pois, segundo o raciocínio de Reivalino Belarmino, revelado em sua ação de contar, determinadas pela quantia de dinheiro oferecida. Não há rubor no relato. Trata-se apenas de uma constatação apresentada como óbvia. Dinheiro e trabalho não estão associados. Dinheiro e gratificação, opostamente, constituem páreo certo.

 

O narrador revela, declaradamente, a seu narratário sua consciência da absurdidade de um cavalo beber cerveja, conforme relata o riso registrado em itálico, marcando o presente da narração na seguinte passagem: “Ele mesmo, figuro que raras vezes por lá se introduzia, a não ser para dormir, ou para guardar a cerveja — ah, ah, ah — a que era para o cavalo.” (p. 84). É ainda no tempo presente da narração que revela saber ser seu dever comunicar às autoridades competentes as estranhezas do comportamento de Seo Giovânio: “Seja que, por essa altura, eu devia ter procurado as corretas pessoas, narrar os absurdos, pedindo providências, soprar minhas dúvidas. O que fácil não fiz. Sou de nem palavras. Mas, por aí, também, apareceram aqueles — os de fora” (p. 84-85).

 

O ato de narrar dá-se a posteriori. Não há, no entanto, antecipação de fatos da estória narrada. O suspense a respeito da casa entre árvores sempre fechada é mantido na estrutura narrativa até o relato da morte de Josepe, irmão de Seo Giovânio. Reivalino Belarmino fala sem cessar, não cedendo espaço para interferência do narratário. Sabe-se de seu falar ininterrupto pelo registro de “Ah” na estrutura narrativa, pressupondo tratar-se da vinda à tona de uma lembrança inesperada que não quer ser esquecida:

 

Mas, parece que seo Giovânio desconfiou. Pois, por minha hora de surpresa, me chamou, abriu a porta. Lá dentro, até fedia a coisa sempre em tampa, não dava bom ar. A sala, grande, vazia de qualquer amobiliado, só para espaços. Ele, nem que de propósito, me deixou olhar à minha conta, andou comigo, por diversos cômodos, me satisfiz. Ah, mas depois, cá comigo, ganhei conselho, ao fim da idéia: e os quartos? Havia muitos desses, eu não tinha entrado em todos, resguardados. Por detrás de alguma daquelas portas, pressenti bafo de presença — só mais tarde? Ah, o carcamano queria se birbar de esperto, e eu não era mais? (p. 85-86, grifos meus).

 

Relacionamento de Reivalino Belarmino com Seo Giovânio

 

O desdém de Reivalino Belarmino pelo italiano é revelado logo no primeiro parágrafo do conto, onde se atém à propriedade do mesmo e a seu aspecto voluntariamente sombrio: “Essa chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa.” (p. 83). Seo Giovânio, definido de saída como “o homem”, evoluirá para “Era homem estrangeiro” (p. 83), no mesmo parágrafo, alcançando “estrangeiro às náuseas” (p. 84) mais adiante. Depois de nomeá-lo de maneira tão descortês, o narrador explica a razão de seu desdém: “Decerto ele tinha remorso, de ser estrangeiro e rico.” (p. 84). Trata-se, pois, da tomada de consciência do narrador da diferença entre sua estória e a do italiano. Reivalino Belarmino é brasileiro e pobre. O outro, segundo a visão de mundo do interiorano narrador, é estrangeiro e rico. Os primeiros parágrafos da narrativa consistirão, pois, na revelação da diferença do outro, da sua deformidade, uma vez que vista pelos olhos da raiva, da inveja do simplório narrador interiorano. Os quatro primeiros parágrafos ater-se-ão a seo Giovânio sem nomeá-lo, vendo nele apenas o “outro”, o estrangeiro, que, em verdade, nesta parte inicial do conto, mais se aproxima de um ogro sempre sentado à porta da casa do que de um ser humano.

 

Antes de chegar à agressão presente nas palavras dirigidas ao italiano, Reivalino Belarmino registrará o que os outros falam do mesmo. Primeiramente se aterá à descrição sempre carinhosa de sua mãe da maneira assustada e precavida como, em 1818, seo Giovânio chegou à região:

 

De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento, e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de vigiar a distância, mão na espingarda; nesse tempo, não sendo ainda tão gordo, de fazer nojo (p. 83).

 

Em seguida, fazendo uso do verbo na terceira pessoa do plural, registra o diz-que-diz-que dos moradores da região, surpresos pelo fato do estrangeiro comer “caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, embebidas num balde de água.” (p. 83). Os costumes do italiano, segundo palavras do narrador, despertam nojos nos demais habitantes, uma vez que “falavam que comia a quanta imundície.” (p. 83). Através desta colocação, fica claro no texto o desconhecimento dos moradores da região em relação a outras diferentes possíveis maneiras de se alimentar. O espaço da diegese não é, conforme já foi afirmado, o sertão mineiro, mas é um espaço bastante distanciado do universo do conhecimento, revelando, por pareceres como este há pouco citado, encontrarem-se, como diz Júlia Kristeva (1994: 14), “nas garras da rotina da monovalência” sem terem sequer consciência de tal fato.

 

Opostamente aos moradores da região, Seo Giovânio possui uma vida constituída por provas, conforme afirma Kristeva (1994: 14) “uma vida onde os atos são acontecimentos, porque implicam escolhas, surpresas, rupturas, adaptações ou estratagemas, sem rotina ou repouso”. Quem se dá conta de tal fato é o leitor da estória contada por Reivalino Belarmino. É o leitor quem percebe que a ida de Seo Giovânio ao interior do Brasil é estratagema de sobrevivência. É ainda o leitor quem se dá conta de que a solidão a que se impôs fez do foragido um ser frágil, carente, pronto a auxiliar os poucos entes que dele podem se aproximar sem significar perigo. Assim se explica o carinho que sente pela mãe e filho, relatada pelo filho narrador: “Minha mãe e eu sendo das poucas pessoas que atravessávamos por diante da porteira, para pegar a pinguela do riacho.” (p. 83). O medo que cercava o italiano registra-se, além do aspecto ocultado da chácara, nos muitos cachorros graúdos e nos cavalos, como se deles necessitasse para se proteger e para uma eventual necessidade de fuga. Tanto cachorros quanto cavalos lá estão, no entanto, em estado de imanência, uma vez que a única ação de Seo Giovânio consiste em cuidar de não se deixar notar. Disto deriva uma vida sedentária, dando-lhe, depois de anos, o aspecto físico degradante tão ressaltado pelo narrador.

 

Seo Giovânio, pelas palavras do narrador, parece sempre estar sentado entre a casa, fechada, e o universo que lhe é exterior, alimentando-se como um animal, ou seja, primitivamente, de alface e carne, ainda que esta seja cozida. O desdém do narrador em relação ao italiano leva-o a tomar a casa sempre fechada como índice dos maus juízos do estrangeiro em relação aos brasileiros: “Sujeito sistemático, com sua casa fechada, pensasse que todo mundo era ladrão.” (p. 84). O leitor, no entanto, vai além da interpretação do narrador. Fica-lhe em suspenso a probabilidade de caber a Seo Giovânio ser guardião de um segredo. Este dado, ao final da narrativa, vem à tona: a presença, às escondidas, do irmão desfigurado pela guerra, que, provavelmente, gostava de cerveja, aquela cerveja sempre comprada como se fosse apenas para o cavalo.

 

Nos quatro primeiros parágrafos do conto, o narrador ateve-se à apresentação do “outro”, o italiano, visto pelos olhos da raiva, da inveja. Nos oito parágrafos seguintes, Reivalino Belarmino ater-se-á à ação sub-reptícia do Consulado Italiano direcionada a Seo Giovânio e à prontidão com que as autoridades brasileiras colocaram-se a serviço do consulado europeu. Este segundo momento da narrativa inicia-se com a seguinte afirmação: “Mas, por aí, também, apareceram aqueles — os de fora” (p. 85). Seu término ocorre quando o italiano explica a ausência de rosto no corpo morto do irmão: “— ‘Que esta é a guerra...’ — seu Giovânio explicou — boca de bobo, que se esqueceu de fechar, toda doçuras” (p. 88).

 

Seo Giovânio, que nos quatro primeiros parágrafos do conto apareceu apenas como “(d) o homem” (p. 83), “homem estrangeiro” (p. 83), “estrangeiro às náuseas” (p. 84), “aquele homem” (p. 84), agora aparece devidamente nomeado, ainda que desprovido de sobrenome. Os “outros” passam a ser os dois funcionários do Consulado Italiano: “Sonsos, os dois homens, vindos da capital” (p. 85). Entre eles situa-se “seo Priscílio, subdelegado” (p. 85), que se coloca servilmente a serviço das não declaradamente assumidas autoridades italianas. Toda anterior antipatia de Reivalino Belarmino dirigida a seo Giovânio agora se direciona aos funcionários do consulado sempre apenas vistos como “os de fora” (p. 85, 86, 87, 88) cujas ações se efetivam “de colondria” (p. 86), ou seja, às escondidas, mostrando-se aficionados em culpabilizar o italiano não se sabe de qual crime. O dinheiro, que antes se colocava entre Reivalino Belarmino e o italiano, agora se coloca entre os funcionários do Consulado e o mesmo interiorano narrador personagem. Ao mesmo tempo, o narrador pressupõe que o dinheiro também atua como mediador entre seo Priscílio e os funcionários do Consulado: “Só que, antes, Seo Priscílio chegou, figuro que os de fora a ele tinham prometido dinheiro” (p. 88).

 

O sertanejo conta que gradativamente seo Giovânio vai sendo obrigado a revelar-se. Mostra-se, num primeiro momento, atrapalhado: “Por derradeiro, estava meio estramontado, soubesse da vinda dos de fora?” (p. 85). Depois, desconfiado, acaba por mostrar a casa ao sertanejo: “Pois, por minha hora de surpresa, me chamou, abriu a porta [...] me deixou olhar à minha conta, andou comigo, por diversos cômodos, me satisfiz” (p.85). Quando responde ao questionamento do delegado sobre o fato de seu cavalo beber cerveja, simpaticamente dirige a palavra a Reivalino Belarmino: “— ‘Irivalíni, que estes tempos vão cambiando mal. Não laxa as armas!’” (p.86). Estas gradativas revelações do italiano vão modificando a maneira do sertanejo posicionar-se em relação ao mesmo. A cumplicidade acaba por situar-se entre ambos: “Aprovei. Sorri de que ele tivesse as todas manhas e patranhas” (p. 86).

 

Se a grande preocupação de seo Giovânio consistiu sempre — no tempo em que, fugido da Europa, esteve no Brasil — em permanecer oculto, quando descoberto, mostra-se cordato frente às solicitações da autoridade policial brasileira. Assim, quando lhe pedem que abra as portas de sua casa para uma vistoria, obedece. Quando nela encontram “um cavalão branco, empalhado” (p. 87), cala-se, mas, depois, dirige-se àquele por ele considerado próximo, Reivalino Belarmino: “— ‘Irivalini, pecado que nós dois não gostemos de cerveja, hem?’” (p. 87). Frente à fragilidade do patrão, dia após dia o sertanejo dele vai se aproximando: “Tive a vontade de contar a ele o que por detrás estava se passando” (p. 87).

 

E a gradação reveladora de seo Giovânio continua. Antes foi descoberto pelas autoridades italianas, que pediram ajuda ao Governo brasileiro. Depois, invadiram-lhe a intimidade, adentraram-se em sua casa e revelaram a presença de um estranho animal. Cordato, seo Giovânio sempre obedece, mas, ao ver seu cavalo empalhado descoberto, acaba por ficar, como os negros aqui advindos, “banzativo” (p. 87), ou seja, começa a adentrar-se em seu universo particular, a sentir saudade de si mesmo[3], daquele homem nascido na Itália...

 

O título do conto advém de um engraçado cavalo com seu gosto de beber cerveja. Em verdade, este jocoso animal oculta outro, seu duplo, escondido no “duro de trancado” (p. 87) quarto dentro da sempre fechada casa: “um cavalão branco, empalhado” (p. 87). Quando revelado, este segundo cavalo desencadeia modificações no comportamento do italiano até então apenas configurado como comilão: entristece-se, tal qual os negros que para outras terras foram levados.

 

Este mesmo italiano tornado “banzativo” (p. 87) gradativamente mais vai se aproximando de Reivalino Belarmino e ganhando competência para falar das dores que o afligem: “— ‘Irivalini, eco, a vida é bruta, os homens são cativos..’.” (p. 87); “ — ‘Mas, Irivalini, nós gostamos demais da vida...’” (p. 87). É então que o estrangeiro revela a morte do irmão que, como o “cavalão branco, empalhado” (p. 87), escondia na sempre fechada casa:

 

Sendo que foi de repente. Seo Giovânio abriu de em par a casa. Me chamou: na sala, no meio do chão, jazia um corpo de homem, debaixo de lençol. — “Josepe, meu irmão”... —  ele me disse, embargado. Quis o padre, quis o sino da igreja para badalar as vezes dos três dobres para o tristemente (p. 87-88).

 

Assim como o “cavalão branco, empalhado” (p. 87) atuou como o duplo do jocoso cavalo que bebia cerveja, o irmão morto atuará como o duplo de seo Giovânio, o italiano, sendo revelador da perda de identidade que a imigração lhe impôs. Tal fato ganha caráter de denúncia quando aparece no texto a figura de seo Priscílio, subdelegado, ordenando que o defunto seja descoberto. Neste momento no qual se viu que “o morto não tinha cara, a bem dizer — só um buracão, enorme, cicatrizado antigo, medonho, sem nariz, sem faces” (p. 88), o leitor não pode deixar de pensar na maneira como o Brasil se posicionou frente aos foragidos das guerras européias do século XX que aqui vieram se esconder. A dor que consome a nós, leitores, mais faz aumentar quando nos deparamos com a humilde justificativa oferecida por seo Giovânio ao subdelegado seo Priscílio e aos demais presentes diante do corpo morto do irmão: “ — ‘Que esta é a guerra...’ — seu Giovânio explicou — boca de bobo, que se esqueceu de fechar, toda doçuras” (p. 88).

 

Reivalino Belarmino narrador então se entrega de maneira completa à compaixão e amor pelo italiano antes visto como “o homem” (p. 83), “homem estrangeiro” (p. 84), “estrangeiro às náuseas” (p. 84). A antiga nominada “feia fala” (p. 84) do italiano é agora ouvida como “tom de canto” (p. 88). As palavras antes dirigidas pelo estrangeiro ao sertanejo, que não eram respondidas, agora instauram diálogo e culminam no compartilhamento de muitos copos de cerveja. Seo Giovânio era outro, “mais achacoso, envelhecido, subitamente, no trespassamento da manifesta dor” (p. 88). Reivalino Belarmino também era outro, não tendo mais condições de permanecer no mesmo lugar onde tanto duvidou do outro, do diferente, daquele que parecia não querer se relacionar com gente pobre do sertão brasileiro.

 

Relatadas ao narratário as despedidas entre o interiorano narrador e o estrangeiro, resta ao último parágrafo do conto o encerramento no qual sinteticamente é transmitido àquele que ouve ou lê a estória o fim do italiano, sua morte, e o destino de seus pertences. Com carinho, a ele o narrador se dirige, pela primeira vez, como “o meu Patrão” (p. 88). Conta que lhe deixou a chácara como herança, cabendo a ele, o carinhosamente denominado por seo Giovânio como “contadino, bambino”. (p. 88) antes de vendê-la, colocar ordem, dar fim, a tudo aquilo que lembrasse a dor do ocultamento, da desculturação. Desta forma, mandou cortar as árvores que ocultavam a casa, enterrar o cavalo empalhado e, tristonhamente, de maneira indireta, responde a colocação do italiano que, em momento derradeiro, lhe disse: “— ‘Irivalini... que esta vida... bisonha. Caspité?’” (p. 88): “Eu, Reivalino Belarmino, capisquei. Vim bebendo as garrafas todas, que restavam, faço que fui eu que tomei consumida a cerveja toda daquela casa, para fecho de engano” (p. 89).

 

Conclusão

 

Como foi afirmado na Introdução deste trabalho, muitos são os personagens estrangeiros presentes na obra de João Guimarães Rosa. Eles são vistos a partir da perspectiva de narradores sertanejos que gradativamente vão sendo por eles conquistados. Assim também acontece com o protagonista de “O cavalo que bebia cerveja”, seo Giovânio, fugitivo da Primeira Guerra Mundial.

 

Figura enigmática sempre situada entre o mundo interior e exterior, cuidando de resguardar o primeiro e de não se mostrar excessivamente no segundo, seo Giovânio, em determinado momento da trama, é obrigado a defrontar-se com seu passado e, desta forma, acaba revelando ao mundo exterior as fissuras marcadas pela desculturação. As dores reveladas, as consequentes transformações comportamentais, levam o narrador sertanejo a modificar sua visão deste “outro” e, desta forma, efetiva-se na realidade textual a alteridade.

 

Diante do texto, o leitor brasileiro acaba por pensar seu posicionamento frente aos muitos foragidos de guerra que para cá vieram e, ao mesmo tempo a recapitular a maneira como nosso país se posicionou em relação aos mesmos. A estória acaba, pois, por conduzir à leitura da História.

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

KRISTEVA, Julia. Estrangeiros para nós mesmos. Trad. Maria Carlota Carvalho Gomes. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. 14ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

_________. Grande sertão: veredas. 19ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

_________. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason: (1958-1967). Edição, organização e notas Maria Apparecida Faria Marcondes Bussolotti; tradução Erlon José Paschoal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: Academia Brasileira de Letras; Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2003.

 

 


[1] João Guimarães Rosa (2003: 347) explica a seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason o que vem a ser “a espanhola”: “im Jahr der Spanierin =:? —A ‘espanhola’ foi a gripe maligna (‘influenza espanhola’ que, sob forma de epidemia ou pandemia, se espalhou pela Europa e depois pela América, terrível, matando muita gente, em 1918.”

[2] João Guimarães Rosa. Primeiras estórias. 14ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 83. As demais referências a “O cavalo que bebia cerveja” limitar-se-ão ao número de página desta edição.

[3] De acordo com o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, “banzo” é um “processo psicológico causado pela desculturação, que levava os negros africanos escravizados, transportados para terras distantes, a um estado inicial de forte excitação, seguido de ímpetos de destruição e depois de uma nostalgia profunda, que induzia à apatia, à inanição e, por vezes, à loucura ou à morte (p. 397).

 

 

 

Pour citer cet article:

CEZAR, Adelaide Caramuru, « Um italiano na obra de João Guimarães Rosa », Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009, URL: www.pluralpluriel.org.