A seriedade das coisas inexplicáveis
Michel Laban et Mia Couto (Collection Famille Michel Laban)
Se houve uma altura em que me arrependi de ser escritor foi há uns anos atrás num dia solarento em que planeava passear-me pela capital de França. À porta do hotel, Michel Laban esperava por mim e apontou-me o dedo convincente:
- D’ abord le travail.
Eu já me antevia parisiando, e o Michel me conduzindo para um quarto escuro onde me esperava um longo e impiedoso interrogatório. Mil perguntas sobre os meus neologismos, mil dúvidas sobre a origem e sentido de palavras que ele tinha garimpado nos meus livros.
- Mas, Michel, eu já respondi a essa.
- A resposta não estava completa.
Sem alterar a voz, no seu impecável português, Laban acenava-me com papéis que eram como os ovos: sempre às dúzias. Aquelas folhas, revistas até à exaustão, eram parte de um dicionário que o professor e investigador francês, nascido na Argélia, estava preparando há anos. Nesse dicionário sobre as literaturas africanas de língua portuguesa eu estava, desgraçadamente, incluído.
- Isto é sério, corrigia ele.
E era. Não conheci nunca investigador tão zeloso, penteando tão fino neologismos que eu mesmo duvidava ter escrito. E catando gralhas que dezenas de revisores tinham deixado escapar. Tudo anotado em papel, computador e gravado em cassetes que eram rotuladas por intricados rótulos. Fiel à própria fidelidade, fazendo com que os autores revissem e voltassem a rever antes de ele mesmo publicar. Os inquéritos que me roubavam Paris tinham essa inquestionável seriedade. Às vezes, eu me interrogava: este dicionário será uma obra para terminar? E ele, paternalmente, me incitava: vê, olha pela janela, ainda é dia, daqui a pouco sais por aí...A verdade é que eu, duas horas depois, já começava a despachar nas respostas. Enganava-me com alguma convicção: como se pode, caro Michel, explicar um neologismo, filho de embriagada paixão?
- Tudo se explica, mon cher.
- Michel, mas eu quero espreitar Paris.
- Depois, agora jantas connosco, já disse à Zé.
E eu, num instante, reconfirmava o meu estado de cativo, entendo que o que me aprisionava era, afinal, a amizade por Michel e a simpatia de toda a sua família. Num instante, eu me convertia num Laban, jantando entre os filhos, a mulher e esse homem sério que sorria triste, como se o riso fosse coisa para não ser esbanjada. E quando terminava o jantar já era eu quem incitava Michel para regressarmos ao infinito tear do dicionário.
-Tens a certeza? Não queres ver Paris?
E lá voltávamos, ambos, repartindo ombros num labor cuja amplidão demorei a reconhecer. E me espantava como ele, sabedor de ocultas artes, olhava a palavra a microscópio e descobria nela aquilo que nós, criadores, nunca antes havíamos reparado. E com chinesa paciência insistia e voltava a insistir para que os caóticos escribas respondessem aos seus infindáveis questionários.
Já doente, Michel me incitou, pela décima vez, a rever os questionários. Por email me chegavam, anotadas com infinito preciosismo, as respostas e, sublinhadas a cores diversas, as incongruências das minhas anteriores declarações. Numa das últimas mensagens, esperançoso de melhorar, ele se despedia: A bientôt, mon cher camarade! E eu lhe respondi que, da próxima vez, já terminada a obra, não falharíamos Paris.
Todos nós, escritores africanos, devemos muito a este francês, de cabelo precocemente branco, e à sua religiosa fidelidade para com o processo de investigação e divulgação. É nosso dever tornar visível a vida e a obra deste homem que aceitou apagar-se para emprestar mais luz à literatura africana de língua portuguesa.
Mia Couto
Né à Beira (Mozambique) en 1955, de parents originaires du Nord du Portugal. Après des études de médecine à Maputo, il s’engage aux côtés du Frelimo (Front de Libération du Mozambique) tout en menant une activité de journaliste dans A Tribuna. Il se consacre ensuite au journalisme (fondation et direction de la première agence d’information du Mozambique et des journaux Tempo et Jornal de Notícias); en 1985, il reprend ses études en biologie, domaine dans lequel il exerce son métier actuel.
Mia Couto aime dire : não sou escritor ; estou escritor. Auteur fécond, son œuvre est traduite en plusieurs langues, dont le français : aux Editions Albin Michel: Terre Somnambule, 1994, Les Baleines de Quissico, 1996, La Véranda au Frangipanier, 2000, Chronique des jours de Cendre, 2003 et aux Ed. Chandeigne, Le chat et le Noir, 2003 et Le dernier vol du flamant, 2009). En 2002 Terra Sonâmbula est élu un des 12 meilleurs livres africains du XXe siècle.
Nascido em Beira (Moçambique) em 1955, seus pais são originários do norte de Portugal. Após iniciar estudos de medicina em Maputo, engaja-se ao lado do Frelimo (Frente de Liberação de Moçambique) sempre mantendo uma atividade jornalística em A Tribuna. Posteriormente, dedica-se inteiramente ao jornalismo, com a fundação e direção da primeira agência de informação do país e dos jornais Tempo et Jornal de Notícias); em 1985, volta aos estudos em biologia, disciplina em que atua professionalmente.
Mia Couto gosta de dizer : não sou escritor ; estou escritor. Autor fecundo, sua obra é traduzida em várias línguas : em francês, na editora Albin Michel: Terre Somnambule, 1994, Les Baleines de Quissico, 1996, La Véranda au Frangipanier, 2000, Chronique des jours de Cendre, 2003 e na editora Chandeigne, Le chat et le Noir, 2003 e Le dernier vol du flamant, 2009. Em 2002, Terra Sonâmbula foi eleito um dos doze melhores livros africanos do século XX.


