Mulher, pecadora e santa: a personagem Maria Mutema, de Guimarães Rosa

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Rosana Ribeiro Patricio

Universidade Estadual de Feira de Santana - Brasil

 

 

 

Este trabalho analisa a trajetória da personagem Maria Mutema, desde sua aparição numa cena do romance Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa (1956), até sua reescritura no conto “Ave, Maria Mutema”, de Aleilton Fonseca (2006). Através de um estudo comparativo, pretende-se verificar a trajetória textual da “mulher pecadora”, fixada pelo discurso dos jagunços, até a sua reelaboração como “mulher santa”, no seio da cultura rústica do sertão.

 

O Bem e o Mal permeiam a narrativa de Guimarães Rosa, numa tensão constante que alimenta e conduz o fluxo narrativo, constituindo uma dinâmica de valores, detalhes, ilações, causas, efeitos e soluções.  Em algumas passagens de sua obra percebe-se o encaminhamento dessa dialética, com nítidos desdobramentos das tensões acumuladas no processo narrativo que levam a determinados efeitos de leitura.

 

No conto “Desenredo”, do livro Tutaméia (1985), observa-se que a trama transita em direções contrárias, evidenciando um jogo discursivo que desfaz/refaz as versões dos fatos para transfigurar a realidade das personagens. Traído pela mulher amada, Liviria/Irlivia/Rivilia/Viliria, Jó Joaquim se aplica a reabilitá-la da má fama, construindo uma nova versão dos fatos, a ponto de a própria protagonista terminar acreditando na sua virtude moral e esquecer-se de seu desvio de conduta. Jó Joaquim pratica as virtudes teologais, condensadas nas graças da fé, da esperança e da caridade. Ele exercita a fé ao firmar que sua vida só teria sentido ao lado daquela mulher. Manteve sempre a esperança, pois jamais a esqueceu. E reatou a relação com ela, apesar dos acontecimentos desfavoráveis. Por fim, exercita a caridade, ao resgatá-la da desonra, restaurando-lhe o estado de integridade moral, como esposa virtuosa. Assim, ao operar o curso da história, viveu feliz com sua Vilíria, (má e pura), que para ele é apenas Líria, numa nítida referência ao símbolo de pureza natural.

 

Normalmente, o Bem e o Mal são princípios antagônicos bem delimitados. Entretanto, Jó Joaquim utiliza a mobilidade da linguagem para desafiar a lógica e o conceito de verdade, com plena consciência de sua ação. Desse modo sua versão adquiriu foros de verdade, através da fé.

 

Já Aleixo, personagem de Grande sertão: veredas, era dado às “maiores ruindades calmas”. “Um dia, só por graça rústica”, mata um velhinho desvalido. Algum tempo depois, seus filhos adoecem de sarampo e os três meninos e uma menina restaram irremediavelmente cegos. A partir disso, Aleixo torna-se bom, resignado e feliz pela sobrevivência dos filhos:

 

O Aleixo não perdeu o juízo; mas mudou: ah, demudou completo — agora vive da banda de Deus, suando para ser bom e caridoso em todas suas horas da noite e do dia. Parece até que ficou o feliz, que antes não era. Ele mesmo diz que foi um homem de sorte porque Deus quis ter pena dele, transformar para lá o rumo de sua alma. (Rosa,1984: 11).

 

Outro causo narrado por Riobaldo é o do menino Valtei, assim descrito: “O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar... ” – uma ocasião ele pequenino me disse.” (Rosa, 1984:11).

 

Os pais de Valtei, a propósito de corrigirem sua natureza má, passam a espancá-lo e a praticar outros maltratos em hora marcada. Com o corretivo, o garoto passa a sofrer como um menino bom. Enquanto isso, os pais transitam para o pólo perverso, ao surrarem no filho agora só por gosto e diversão.

 

No conto “A Benfazeja”, a personagem Mula Marmela mata o marido Mumbungo, que era um perigoso malfeitor. Em seguida, ao que parece, ela cega o enteado Retrupé, tornando-se sua guia. Nesse caso, a sua maldade, ao matar e talvez cegar, se reconfigura como um ato de bondade, uma vez que livra a comunidade de dois homens criminosos facínoras, e, ao mesmo tempo, redime-os de sua condição. Rejeitada pela comunidade, que não pode compreender a dialética de seu gesto purificador, Mula Marmela isola-se, ao tempo em que o narrador desvela o verdadeiro sentido de sua açao, como benfazeja, confirmando a lógica do mal que vem para o bem.

 

A personagem Maria Mutema, protagonista da causo narrado pelo jagunço Jõe Bexiguento a Riobaldo, vive uma trajetória que ilustra a dialética rosiana do Bem e do Mal. Maria Mutema mata o marido, sem nenhum motivo. O narrador enfatiza assim o seu crime contra o marido: “Matou – assim despejou no buraquinho do ouvido dele, por um funil, um terrível escorrer de chumbo derretido.” (Rosa, 1984: 173). Em seguida, durante sucessivos atos de confissão na igreja da vila, Maria Mutema leva o Padre Ponte a um crescente desgosto, até ele definhar e falecer. Ela afirma, durante as várias confissões, que cometera o crime por amor a ele, Padre Ponte, por gostar dele em fogo de amores, desejando ser sua amásia. Na verdade, apenas o torturava psicologicamente.

 

Este episódio da Maria Mutema, curta e intrigante passagem de Grande sertão : veredas, foi apropriado e transformado em conto, por Aleilton Fonseca, conforme consta no livro Quartas histórias: contos baseados na narrativa de Guimarães Rosa, organizado por Rinaldo de Fernandes e publicado em 2006, com a participação de 40 autores brasileiros contemporâneos, que recriam contos e passagens da obra de Rosa, em homenagem ao escritor mineiro.

 

Ao se apropriar do texto rosiano, o autor transporta-o para a estrutura do conto, dando extensão ao seu enredo e aos seus significados. Para tanto, desenvolve a trama, tentando revelar os sentidos cifrados nas entrelinhas e contradizer a lógica do narrador primeiro. Assim, desloca o sentido da história original, conferindo-lhe outra perspectiva narrativa, nova inserção temporal, outra finalidade, e, consequentemente, com nova interpretação do episódio. Ou seja, trata-se de um texto outro, derivado, que guarda, no entanto, uma relação de origem e motivação com o texto rosiano.

 

O processo de recriação envolve vários procedimentos textuais. Inicialmente, o texto rosiano é submetido a um novo enfoque, através da voz de outro narrador, e em nova perspectiva. No causo de Rosa, Riobaldo conta, de segunda mão, o relato que Jõe Bexiguento transmitira aos jagunços, num momento de descanso e relaxamento, por simples prazer lúdico. Riobaldo afirma:

 

Naquele tempo, também, eu não tinha tanto o estrito e precisão, nestes assuntos. E o Jõe contava casos. Contou. Caso que se passou no sertão jequitinhão, no arraial de São João Leão, perto da terra dele, Jõe. Caso de Maria Mutema e do padre Ponte. Naquele lugar existia uma mulher, por nome Maria Mutema, pessoa igual às outras, sem nenhuma diversidade. Uma noite, o marido dela morreu, amanheceu morto de madrugada. Maria Mutema chamou por socorro, reuniu todos os mais vizinhos. O arraial era pequeno, todos vieram certificar. Sinal nenhum não se viu, e ele tinha estado nos dias antes em saúde apreciável, por isso se disse que só de acesso do coração era que podia ter querido morrer. E naquela tarde mesma do dia dessa manhã, o marido foi bem enterrado. (Rosa, 1984: 174).

 

Após a morte do marido, a Mutema passa a ir à igreja e confessar-se ao padre Ponte três vezes por semana. O fato chama a atenção das pessoas do lugar. O Padre Ponte mostrava grande desgosto com essa penitência. E ambos falavam no confessionário. Ele ralhava com ela, e cada a dia se mostrava mais contrariado. Em seguida, o padre adoeceu e morreu. Após a sua morte, Mutema sumiu da igreja, gerando estranhamento nas pessoas do arraial. Certa vez houve uma santa missão no lugar e os padres missionários, rígidos pregadores, impediram a entrada de Mutema no templo, na hora da missa, no penúltimo dia, véspera da festa final. E o missionário, para espanto de todos, induz a Mutema a confessar seus pecados e pedir perdão, não na Igreja, mas no cemitério, sobre duas covas lá existentes. É quando Maria Mutema posta-se ao chão, declarando sua culpa pela morte do marido e do padre. Ao marido matara, sem qualquer motivo, colocando chumbo derretido no ouvido, enquanto ele dormia. O padre levara ao sofrimento, declarando-lhe amores e pedindo para ser sua amante. E tudo isso, sem sentimento nenhum, por simples maldade, a fim de atormentá-lo.

 

Presa e julgada pelos crimes confessados, Mutema se entrega a uma provação. Permanece sem comer, sem dormir, só rezando e declarando-se igual a estrume, a quem todos deviam bater e cuspir na cara. Por essa penitência auto-inflingida, criou uma aura piedosa em torno de si. Recebia visitas em romaria, rezava e confortava os necessitados, de modo que, conforme narra Riobaldo: “Mesmo, pela arrependida humildade que ela principiou, em tão pronunciado sofrer, alguns diziam que Maria Mutema estava ficando santa”, conforme narra Riobaldo:

 

Só que, nos dias em que ainda esteve, o povo perdoou, vinham dar a ela palavras de consolo, e juntos rezarem. Trouxeram a Maria do Padre, para perdoarem também, tantos surtos produziam bem-estar e edificação. Mesmo, pela arrependida humildade que ela principiou, em tão pronunciado sofrer, alguns diziam que Maria Mutema estava ficando santa. (Rosa, 1984:174).

 

É a partir desse final rosiano que o texto começa a ser recriado na forma de um conto. O causo narrado por Riobaldo termina com a informação de alguns diziam que Maria Mutema estava virando santa. O título do reconto “Ave, Maria Mutema!” parte dessa ideia, agora consolidada, de que a personagem era de fato considerada uma santa pelos sertanejos do lugar, fato confirmado pelo novo narrador.

 

No texto original, Riobaldo finaliza o relato assim: “E foi isso que Jõe Bexiguento a mim contou, e que de certo modo me divagasse.” Observa-se que o narrador primeiro é um jagunço que relata o fato a Riobaldo para que de certo modo ele se divagasse, ou seja, se distraísse. Trata-se, portanto, de um investimento lúdico, sem nenhum compromisso com algo para além do simples contar um causo para divertir os presentes. Por sua vez, o reconto substitui a perspectiva lúdica por uma aplicação séria. O narrar agora constitui um ato de devoção. O novo narrador é um neto de Jõe Bexiguento, que narra a nova versão do causo da Maria Mutema, como pagamento de uma promessa que fizera à santa, a fim de curar-se de seus males da velhice.

 

Portanto, opera-se um deslocamento no tempo e no objetivo da narração e, consequentemente, na motivação do narrador. O neto do narrador rosiano está consciente de sua missão: narrar como ato de restabelecer a verdade, para reabilitar a boa fama da Maria Mutema, dando outra interpretação aos fatos e a suas atitudes, estabelecendo uma nova lógica no enredo. Assim, inicia o narrador, neto de Jõe Bexiguento, no reconto:

 

O senhor me escute, por precisão minha. Venho de longe, estou de volta, depois de longas passagens. Sou destas ribanceiras do sertão jequitinhão, agora dificultoso de reconhecer, tantos trechos que se acham demudados. Me criei nestas pirambeiras, perto de São João Leão, lugar até hoje santo no nome, mas despido da bondade divina. Será castigo? Venho em missão minha, pra sossegar meu espírito. Jurei, em promessa por saúde, desmanchar os falares de um parente meu, dito Jõe Bexiguento, meu avô, raro homem de bandos e arruaças, daqueles tempos que se vão nas lembranças dos mais velhos. Eis aí o arraial, toda gente mudada; todos contam a estória, mas ninguém sabe por certo os pingos dos is. São João, na capela humilde, espia o povo do mesmo jeito, mas as orações tresmudam com o tempo. As estórias também. Em viagem, pressinto e revejo: a terra é a mesma que vi, pois ainda enxergo os sinais dos caminhos por onde atravessei cancelas. (FONSECA, 2006: 54).

 

A partir do compromisso com a “verdade verdadeira” da Maria Mutema, o novo narrador reorganiza os fatos narrados pelo avô, dando-lhes outros sentidos, com interpretação contrária às intenções e efeitos das ações atribuídas à personagem.  Se a narrativa de Jõe Bexiguento cria uma imagem má e terrível de Mutema, o neto destece essa imagem e a recompõe como um mártir, alguém que se sujeita a tudo por verdadeiro amor, e depois assume a culpa por amor e para redimir a igreja da cidade, operando, ainda em vida, um milagre, durante a Santa missão realizada na vila. Ela completa seu ato de expiação com o fragelo da penitência e da prisão, de modo a tornar-se verdadeiramente santa, pela intensidade do sacrifício físico e moral.

 

Para estabelecer o diálogo e a transformação dos sentidos, o motivo e os fatos do conto original foram apropriados, de maneira que transitam no conto novo em regime de paráfrases em transição para o efeito de paródia que se efetiva nos sentidos particulares e no sentido global do enredo.

 

Conta o novo narrador, neto de Jõe Bexiguento:

 

De quando começo a jornada? Certo dia, de rompante velhice, caí doente de fazer pena aos estranhos. De tal labutar nos eitos, descangotei os ossos! No delírio das febres, eu me via de novo meninozinho miúdo, por aqui jogado, convivendo com as futricas de gente grande. No achaque, conheci que morria mesmo, se não recolhesse meus vinténs de fé, e me pegasse com a bondade da Santa, obreira de milagres tão falados pelas bandas deste sertão de nós todos. Em contrição, larguei do cachimbo e da cachaça, traguei garrafadas e beberagens, purguei os pecados na reza. De alma leve, fiz promessa à Santa, no interesse de ficar bom das pernas e andar por aí sem tonturas. Pois, daí melhorando, me alembrei das arengas de minha mãe, de si para mim, pirralho asnado, sem entendimento das coisas. Depois de velho, ao lembrar, entendi os assuntos. Ela remoía a certeza dos fatos que não contava a ninguém, por contradizer seus interesses. Eram esmiúças com que ninguém atinava e só ela havia salvo dos cochichos. Caí em mim que os relatos de meu avô Jõe Bexiguento eram verdades falseadas, sem maldade, só por meneios de excelente contador. De pedaço em pedacinho, ajuntei os detalhes outros certos que só minha mãe conhecia. As palavras passavam a ser minhas, pelos fios reatados na lembrança. Foi assim, assumi a missão, conforme passo ao senhor. Venho, nesse bom trecho, desenredar a estória que meu avô espalhava aos quatro cantos de suas andanças nos bandos armados, suas fiéis famílias. Ele, demais às pilhérias, amiudava a trama dos causos, só por gosto de levar o ouvinte aos arrepios, pra que de certo modo se divagasse. (FONSECA, 2006: 54).

 

A partir daí o causo de Jõe Bexiguento é retomado para, adiante, ser contraditado e redimensionado. Então, fica claro o espelhamento dos motivos do narrador rosiano e do novo narrador, cujo processo narrativo vai refletir a imagem invertida daquela que o causo original projeta sobre a figura da mulher Maria Mutema. As paráfrases funcionam como reapresentação dos fatos, mas os desdobramentos encaminham o texto do reconto para os registros da paródia. Esse recurso fica claro, por exemplo, na apropriação dos diálogos, quando os mesmos conteúdos são reestruturados, de modo que o discurso indireto é substituído pelo discurso direto, ou pelo discurso indireto livre, marcando as diferenças entre o texto original e o texto recriado. Exemplo disso é o discurso da Maria Mutema na igreja, quando o texto original apresenta-o em discurso indireto:

 

E Maria Mutema, sozinha em pé, torta magra de preto, deu um gemido de lágrimas e exclamação, berro de corpo que faca estraçalha. Pediu perdão! Perdão forte, perdão de fogo, que da dura bondade de Deus baixasse nela, em dores de urgência, antes de qualquer hora de nossa morte. (Rosa, 1984: 174).

 

No novo conto, a própria Mutema assume a voz, em discurso direto, ao fazer sua confissão:

 

Pelo bem da igreja, me confesso culpada. E peço perdão! Perdão forte, perdão de fogo, que da dura bondade de Deus baixe sobre meu corpo, em dores de urgência. Ai, que peno, desde moça, cometendo desatinos, até essa vista velhice. Imploro o perdão de todos. Confesso minha culpa, minha tamanha culpa. (FONSECA, 2006, 58-59).

 

Como se observa, no causo rosiano Jõe Bexiguento, recontado por Ribaldo, realça as culpas de Mutema. No reconto ela assume diretamente o discurso, o que dá uma dimensão grave ao ritual e sublinha sua força de espírito, ao entregar-se ao sacrifício da falsa-confissão para redimir a todos. Isso realça a sua inocência e a sua condição de mulher-vítima de tramas e interesses masculinos. Tão alto milagre irá justificar as romarias até sua cela, e, depois, até sua cova, como santa popular.

 

A par da apropriação do texto rosiano, enquanto enredo, motivo e linguagem, o reconto se aproxima de Rosa para daí se distanciar, estabelecendo a paráfrase como ponto de partida para a extrapolação dos sentidos, afirmando-se como paródia que reconta o original para desmontá-lo em seu sentido geral, propondo nova configuração dos interesses em jogo na trama. Os personagens são redimensionados e reconfigurados com nova feição operacional, com novo perfil moral e ético. Com isso a mesma história é contada, com os mesmos ingredientes, mas com outro resultado, pois outra ordem de valores é erigida em lugar da ordem anterior.

 

O novo conto é resultado de uma missão, uma devoção a santa Maria Mutema, que o neto de Jõe Bexiguento, devoto da santa, desenvolve para reabilitar a “verdade verdadeira” e assim, restabelecer a verdade da família, posto que fora sua mãe que guardara os detalhes que a comunidade desconhecia e lhe transmitira quando ele era apenas uma “criança asnada”, segundo suas palavras.

 

Na nova configuração do enredo, de vítima o padre Ponte passa vilão, mentor que induz Mutema ao crime. Ele o amava desde muito, pois ele fora seu primeiro homem, deixara-a para tornar-se Padre. Ao reencontrá-la em São João Leão, a induz a matar o marido para ficar com ele. Depois, cobrado no confessionário, nega-se a assumir sua palavra. Sofre de remorsos pelos seus próprios pecados, e por isso adoece e finalmente morre.  A igreja da vila decai, pois, pela culpa do padre, os devotos perdem a fé. Daí a necessidade da Santa missão dos padres estrangeiros, para restaurar o elo perdido, operando um re-ligare da comunidade à igreja. Maria Mutema terá aí um papel fundamental, já que assume todas as culpas perante a igreja. Inocente, ela assume as culpas num ritual de expiação, aos pés do altar, no ato final da santa missão. A um só tempo ela redime o antigo amado, Padre Ponte, reabilitando sua memória, num ato de perdão ipso factum; e ela redime a comunidade, livrando-a da culpa pela sua maledicência e seu afastamento da igreja. A expiação de Mutema repõe a ordem, recupera a fé coletiva. Assim, com seu sacrifício expiatório, ela opera um milagre. A santa missão nada mais é do que a preparação e o locus do seu sacrifício em nome da fé.

 

Na condição de mulher, ela se realiza, finalmente, como mãe, condição a que tacitamente ela aspirava ao nutrir amor por um homem. No reconto, ela é exposta aos sacrifícios do corpo, e, a essa altura morta, recebe os devotos ao pé do túmulo, em romaria, como uma santa de devoção popular, conforme a fé rústica dos sertanejos.

 

O causo narrado por Jõe Bixiguento e recontado Riobaldo, termina com a afirmação de que Maria Mutema, purificada pelo sofrimento e pelo castigo, estava-se tornando santa:

 

Só que, nos dias em que ainda esteve, o povo perdoou, vinham dar a ela palavras de consolo, e juntos rezarem. Trouxeram a Maria do Padre, para perdoarem também, tantos surtos produziam bem-estar e edificação. Mesmo, pela arrependida humildade que ela principiou, em tão pronunciado sofrer, alguns diziam que Maria Mutema estava ficando santa. (Rosa, 1984: 174).

 

No reconto, o novo narrador, neto de Jõe Bexiguento, e agora devoto da Santa Maria Mutema, conclui sua narração, revelando-a como pagamento de sua promessa:

 

Maria Mutema estava ficando santa. E o tempo confirmou, levando a boa nova cada vez mais longe, a outras terras. Ela hoje recebe os romeiros à beira da cova para acatar as promessas e distribuir misericórdia aos devotos. Eu mesmo confirmo os efeitos, pois que alcancei uma graça. E agora, diante do senhor, termino de pagar minha promessa. Ave, Maria Mutema, amém. (FONSECA, 2006: 60).

 

A comparação mostra que a narrativa original e o reconto trabalham com a dialética do Bem e do Mal, com gradações e intenções diversas. O causo enfatiza a culpa da protagonista, e a sua expiação através do arrependimento, do castigo e do sofrimento. O reconto enfatiza a inocência e o sacrifício,  no processo de expiação e purificação da coumunidade. Nos dois casos, na gradação dos valores que se estendem entre o Bem e o Mal, Maria Mutema encarna a condição de mulher, pecadora e santa. O reconto, portanto, reafirma a dialética presente na obra de G. Rosa, confirmando-se como uma homenagem ao autor mineiro.

 

Essa dialética é um exercicio de enredo/desenredo, como no conto de Tutaméia. Desenredar é, enfim, desfazer os efeitos do Mal num processo de apagamento e restauração de sentidos. Nesse processo, o exercício do Bem é, paradoxalmente, alimentado pela emergência do Mal, a partir do qual aquele se afirma nos gestos de fé, esperança e caridade, que possibilitam o perdão, o apagamento e reescrita da trajetória de vida dos personagens.

 

A partir da variação da bondade à maldade e vice-versa, percebemos a complexidade dessas gradações. O Bem e o Mal, luz e treva, são entidades convoladas que propiciam o surgimento e a continuidade da narrativa. Sem esta tensão e sua dialética, a narrativa estanca e se encerra.

 

Nesse movimento, os valores opositivos relativizam-se, num processo de gradação que faz transitar o sentido em ambas as direções. Nesse encaminhamento, o Bem e o Mal tornam-se fatores dialeticamente complementares, atuando na dinamização e rendimento narrativos, uma vez que sustentam o enredo em tensão, numa disputa recorrente na ficção de Guimarães Rosa.

 


Referências bibliográficas:

 

ARAÚJO, Heloisa Vilhena de. As três graças. São Paulo: Mandarim, 2001.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994.

FONSECA, Aleilton. Ave, Maria Mutema! In FERNANDES, Rinaldo de. Quartas histórias: contos baseados na narrativa de Guimarães Rosa. São Paulo : Geração Editorial, 2006, p. 54-60.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Círculo do Livro, 1984.

ROSA, João Guimarães. Tutaméia (Terceiras estórias), 6.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

 

 

Pour citer cet article:

PATRICIO, Rosana Ribeiro, « Mulher, pecadora e santa: a personagem Maria Mutema, de Guimarães Rosa », Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009, URL: www.pluralpluriel.org