Viagem à Índia – do ser ao nada
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Viagem à Índia – do ser ao nada Gonçalo M. Tavares, Lisboa : Caminho, 2010. |
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Auteur de vingt-huit livres à l’âge de quarante ans, Gonçalo M. Tavares s’illustre aussi bien sur la scène littéraire portugaise qu’internationale. Il reçoit le Prémio José Saramago 2007 pour son roman Jérusalem de la série « Le Royaume », et plus récemment le Prix du meilleur livre étranger 2010 avec Apprendre à prier à l’ère de la technique (des romans traduits du portugais par Dominique Nedellec). Il est également l’auteur de la série « Le Quartier », constitué de Monsieur Valéry, Monsieur Brecht, Monsieur Kraus entre autres.
Em Viagem à Índia, o estilo de Gonçalo M. Tavares evidencia-se soberano, individualizado e condensado como em mais nenhum outro livro seu, um estilo fragmentário mas luminoso, desconstrutor de todas as cristalizações semânticas da língua, criando um texto que se faz a si próprio à medida que avança, desprezador dos códigos literários instituídos, dotado de uma filosofia do corpo, da força e do poder teorizada e nos três livros da “Enciclopédia” do autor (Relógio d’Água) e nos livros (filosóficos) de José Gil, isto é, um estilo semelhante a qualquer um dos quatro livros escritos sob o título geral de “O Reino” (Um Homem: Klaus Klump, 2003; A Máquina de Joseph Walser, 2004; Jerusalém, 2005; Aprender a Rezar na Era da Técnica, 2007). Em Viagem à Índia, o lirismo e o epicismo de Camões são subvertidos em absoluto; em seu lugar, fica o grande vazio, o grande Nada ontológico e psicológico de Portugal, a ausência de uma grande razão para Portugal perdurar a não ser em função do economicismo e do consumismo próprios da era da tecnocracia. Viagem à Índia assemelha-se ao “Livro dos Mortos-Vivos” de que somos hoje figura maior na Europa, momento auroral de uma nova civilização europeia, um novo Portugal, de que se desconhece ainda os contornos precisos e de que Gonçalo M. Tavares é, hoje, no nosso país, o maior cantor. Ao epicismo glorioso do Tudo, de Camões, sucede, hoje, o epicismo tenebroso do Nada, de Gonçalo M. Tavares.
O lúcido prefácio de Eduardo Lourenço, que se constituirá por longas décadas como o cânone maior de interpretação deste livro, estatui Viagem à Índia como Os Lusíadas da decadência de Portugal. Claro e luminoso, como tudo o que Lourenço escreve. Porém, diferentemente de Quibiricas (1972), do moçambicano Pedro Grabato Dias, Os Lusíadas não são imediatamente visíveis em Viagem à Índia. De facto, o texto de Gonçalo M. Tavares glosa o texto maior de Camões e a estrutura de Viagem à Índia repete formalmente a estrutura d’Os Lusíadas, o número de cantos, o número de estâncias, os momentos principais da acção. Lourenço tem razão, a glosa evidencia um Portugal decadente e a mensagem do autor é claríssima – a Índia (já) não salva nem Portugal nem a Europa.
Falta, porém, evidenciar o operador estético desta similitude formal, já que o conteúdo de Viagem à Índia é totalmente rebelde ao conteúdo d’Os Lusíadas. De facto, se a forma de Viagem à Índia é decalcada d’Os Lusíadas, o seu conteúdo obedece ao espírito de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, publicado em 1602, cerca de duas dezenas de anos depois do poema épico de Camões. É como se, quatro séculos depois, o espírito de desagregação territorial e decomposição mental do Império presente em Peregrinação, tivesse sido transposto para a forma épica d’Os Lusíadas, subvertendo-o.
Bloom, personagem principal do livro de Tavares, retirada de Ulisses, de James Joyce, não é o anti-Gama de 2010, porque para se ser anti-herói é preciso ainda acreditar que o heroísmo faz sentido, mas para Bloom não faz sentido, Bloom é o errante e des-orientado Fernão Mendes Pinto do princípio do século XX – o homem que, para vingar Mary, sua mulher, assassinada pelo pai, mata este e foge para a Índia em busca de sabedoria, o homem sem moral definida, o homem que se comporta reagindo ao jogo de forças físicas que o atormentam, impelem ou bloqueiam, o homem que ironiza com a cultura clássica europeia, se ri do intelectualismo retórico de Paris, é enganado e quase assassinado em Londres, desgosta-se das palácios do iluminismo de Viena e descobre que a Índia não é já o Oriente do Oriente. Bloom é o homem pícaro, errante, nómada, nunca perde e nunca ganha, perde força de um lado, recupera-a de outro, sempre metido em malabarismos sociais, encrencas, querendo uma coisa e recebendo outra, de novo continuando a caminhar, sem certezas nem remorso, nem perdedor, nem vencedor, tendo como exclusivo horizonte mental a ponta do dedo que indica, ajuizando não segundo o ideal ou o interesse, mas, como o animal, segundo o campo de forças físicas e a geometria do espaço, o homem ocidental que se procura superar na Índia buscando uma sabedoria intemporal e dela, enganado, foge celebrando a vida em Paris com um bando de prostitutas (a “Ilha dos Amores”).
Tavares demonstra neste livro o que já demonstrara nos seus quatro romances: não há salvação para o homem, nem no Ocidente nem no Oriente, não há razão para a existência do homem, não há fim para o homem senão a simples fruição de cada acto, Bloom repete em cada acção o eterno jogo do mundo – quando um ser se levanta, outro baixa-se, um afirma-se, outro recolhe-se, um promove boas acções, outros más, um nasce, outro morre, uma flor floresce para outra se definhar.
Ao longo da sua viagem, sempre habitado pelo inesperado e pela provação, como em toda a literatura de viagem, Bloom vai descobrindo que o mundo, a humanidade e a história são, em si, constitutivamente, não possuídos por uma razão, mas totalmente arracionais, isto é, não possuem intrinsecamente uma ordem global, coerente e determinista nos seus movimentos, mas também não são - não existem provas para uma tal afirmação - irracionais, isto é, caprichosos, acidentais, fortuitos e exclusivamente contingentes nos seus movimentos. Logo, sobre uma ordem indefinível e essencialmente incognoscível do Ser, a humanidade vai estabelecendo ordens fundadas em mitologias, em filosofias, em ciências, em ideologias, em religiões, em visões miríficas - o Ocidente cria o mito do Oriente, o Oriente cria o mito do Ocidente -, sempre esquematizadoras e redutoras, embora explicitamente crentes numa transparência da consciência e da realidade que estas estão longe de verdadeiramente possuir. A arracionalidade significa, então, que não se pode deixar de pensar e agir segundo os cânones tradicionais e vigentes da nossa cultura, embora se deva ter consciência de que a nossa visão ocidental do mundo é tão legítima e tão vã quanto a visão oriental: é legítima, porque ambas, cada uma epocal e geograficamente determinada, analisa e determina a realidade segundo a ordem por si imposta, transformando-a e criando uma realidade humana; e vã, por que nenhuma delas, como nenhuma ordem racional, devido à natureza estrutural da razão, consegue atingir a essência da realidade ou a definitiva verdade do mundo.
Neste sentido, como em Peregrinação, perpassa por Viagem à Índia um profundo sentimento trágico, constatação literária nascida da ausência de lugar natural para o homem, da ausência de uma especificidade ontológica integradora do ser do homem no todo do universo. Diferentemente, o homem pensa-se hoje tanto espantado da sua magnífica existência como cindido do seu ser natural. Tanto não existe finalidade para a existência humana, como permanece misteriosa a raiz primordial donde ela se originou, abandonando a animalidade que lhe ferve no corpo. Assim, cisão originária donde se ergue como tensão e inquietação, o sentimento trágico desdobra-se em diversos níveis de profundidade teórica e de acção prática, mas donde se exclui a verdadeira fonte psicológica e existencial do trágico antigo, que era, então e justamente, a cisão-tensão entre o homem e o sagrado, seja enquanto incognoscibilidade intrínseca deste face ao desejo-angústia de o captar, seja enquanto explícita diferenciação ontológica de grau. Por isso, porque poema europeu do XXI, os deuses encontram-se ausentes da narrativa de Gonçalo M. Tavares. Nesta reside apenas o trágico da existência de Bloom, um homem comum, igual aos outros, consciente de que, ausente o Absoluto, tudo é deserto, tudo é sem-sentido, tudo é absurdo, toda a acção é permitida e toda a vitória é simultaneamente uma derrota. Assim, enquanto a tragédia antiga nasce da consciencialização da fraqueza humana face à fortaleza divina, a tragédia no livro de Gonçalo M. Tavares nasce da consciencialização de ser a fortaleza humana semelhante à realeza de um reinado sem súbditos para reinar e onde toda a ordem e toda a lei, boas ou más, têm como origem e destinatário um único homem, Bloom, sempre insatisfeito de si próprio. Nem a revolta se torna, em si, um acto glorioso, já que toda a revolta procede de alguém contra algo ou alguém a partir de um valor referencial considerado como absoluto, valor pelo qual ganha sentido o acto da revolta. Ora, a inexistência desse valor absoluto na consciência de Bloom (Deus, a Razão, o Bem, por exemplo) torna o acto da revolta tão gratuito e contingente como o valor ou a posição contrária contra a qual existe revolta. Daqui, o sentimento trágico de todo o revoltado que saiba que o mundo sempre se estatuirá como contingente, seja alimentado pela revolta, seja alimentado pela ordem.
É este o retrato do Ocidente prefigurado na personagem Bloom, o “herói-anti-herói-aherói” de Viagem à Índia:
1. - Nada de exterior e transcendente (Deus, Sociedade, Humanidade, Razão, História, Inconsciente, Classe Social...) é superior e determinante face à consciência singular do sujeito;
2. - Nenhum valor em si e nenhuma escala axiológica encontram legitimação universal fora da sua própria instauração epocal, social e histórica, ou seja, civilizacional, e, por isso, uma consciência individual pode ou não pode segui-los, sendo sempre legítima a posição que tome, seja seguindo-os, seja não os seguindo;
3. - Nenhum código linguístico e nenhuma substância de linguagem pode dar conta da realidade em si, da sua essência, senão fragmentária e incompletamente; apenas uma fortíssima linguagem emotiva, exterior à razão, como a poesia, subvertendo as conexões semânticas da língua, nos pode aproximar e revelar a essência do homem e do mundo;
4. - Nenhum corpo doutrinal (Filosofia, Teologia, Religião, Ciência, Ideologia...) é intrinsecamente capaz de espelhar com fidelidade o movimento e a substância do Ser;
5. - Nenhuma acção colectiva ou individual, nenhuma palavra colectiva ou individual são capazes de preencher, senão ilusória e efemeramente, o vazio de absoluto que se instaurou no coração do homem nestes momentos terminais de uma civilização que, tendo conhecido o paraíso da crença inocente, se oferece hoje a si própria o inferno de uma aceleração histórica tão feita de presente fugaz quanto de um futuro sem-sentido.
6. – Finalmente, para Bloom, a própria busca do Oriente como fórmula de sabedoria revela-se tão ilusória quanto a miragem do Ocidente para os orientais – é o mundo inteiro que já não se oferece como salvação, é a totalidade do mundo que se encontra decadente, é o próprio Homem, a Humanidade, que se encontra decadente.
Assim, o sentimento de decadência actual corresponde ao tempo histórico de um movimento social em que o futuro surge como um Nada ontológico e o sentimento de trágico à consciência da inevitabilidade desse mesmo Nada em forma de Ser: o único Ser que habita o horizonte social e individual ganha a forma e o conteúdo de um Nada. O Nada é o Ser – eis o grande princípio que Bloom descobre, não no Ocidente, não no Oriente, mas em si próprio, na sua vida, na sua consciência. Viagem à Índia corresponde tanto à peregrinação dessa mesma descoberta, quanto à sua expiação. A partir de agora, Bloom nada mais procura, apenas se procura ou procura-se. Bloom deu a volta ao mundo para regressar a si próprio, como Portugal, n’Os Lusíadas, foi à Índia para se encontrar, isto é, para conhecer a sua identidade histórica. Bloom pode dormir descansado – já sabe quem é o que é – UM PURO NADA.
Miguel Real,
Escritor.
Azenhas do Mar,
22 de Novembro de 2010.







