Tecendo memórias nas linhas do saber do 'ser rendeira'

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Ingrid Fechine

Universidade Estadual da Paraíba - Brasil

Introdução


O “eu” e o “nós”


Ao ler a memória das rendeiras e a arte da renda,
faço da percepção um complemento do meu ser,
numa interpretação de vozes e da performance
que completa minha leitura da vida,
escrevendo-se um novo tecer.


Estudar as rendeiras é mais que uma pesquisa,
é compreender que, hoje, elas fazem parte da minha memória,
da desterritorialização do meu corpo e
do nomadismo da minha voz,
na construção da minha cultura
e no dizer da minha escritura,
na mistura do “eu” com o “nós”.


Ingrid Fechine, maio de 2010.


A renda é uma arte aprendida na concentração, na observação da linguagem corporal/performática e na voz de suas autoras, as rendeiras. Esta arte se posiciona na comunidade como fonte da identificação de cada artesã, indo além da condição de produto artesanal e marca de saberes e culturas. E revela a voz da memória e da performance de quem a construiu.


As rendeiras conceituam a renda e dizem tanto da construção quanto do significado do ponto. Contam da memória inserida nessa imagem que se transforma em linguagem. É como tecer a voz no papel, sendo que a sua escrita se chama ponto de Renascença.


Nesse sentido, busca-se refletir o ser rendeira, através da voz que fala da memória, que comunica suas experiências de aprendizagem ou de ensino, bem como da performance, da leitura dos gestos e da imagem da renda.


1 Voz da memória, poética das mãos: laços na família e na comunidade


Se eu sou, afirmo, recrio, transformo,
imagino, realizo e transmito.
Ser rendeira é se reconhecer na voz,
na performance, na experiência,
na criação e na marca da escritura
que nas minhas mãos é a Renda Renascença.


Ingrid Fechine, maio de 2010.


A Renda Renascença é aqui considerada uma expressão artística e poética alicerçada na transmissão de saberes, através da voz, da performance, da memória e da observação de gerações de rendeiras. Cada uma tem uma “co-autoria” dessa arte, a partir da criação de pontos. A performance, que expressa significado nas mãos das artesãs ao recriar sua arte, a cada ponto produzido, as torna intérpretes de sua cultura. As mãos tecem à medida que os sonhos, as expectativas e as formas da criação e da vida vão sendo fixadas na memória.


A memória das rendeiras relaciona o espírito coletivo, as vivências, a história, os saberes e a imaginação, expressando cultura e identidade pela voz e pela imagem dos pontos. Thompson (1998) ressalta que é preciso ouvir bem as palavras, pois nelas a memória encontra vida na voz humana, quando antes só existia no mundo pessoal ou coletivo das lembranças. Através da expressão posta na fala descobrimos o reflexo das lembranças e dos sentimentos das pessoas. O autor afirma que, a partir da fala e da voz, o sujeito, sua palavra, suas expressões e modos de falar vão externar o dizer de sua memória. Para Bosi (2003), a memória é construída pela linguagem como meio de referência social.


Não são apenas recordações de vivências particulares, mas a articulação da memória (individual e coletiva) que reforça a identificação do “ser” rendeira, construído no saber-fazer renda. A voz da tradição que ensina completa a performance habilidosa na manutenção da arte e na criação de novos pontos, como na interação da comunidade pela transmissão desse saber. Assim, a voz expressa uma memória, também revelada na forma de observar o fazer renda por tantas gerações de rendeiras.


Compreende-se que a performance é corpo, é a voz em ação, um movimento que celebra e comunica, enunciando pelas expressões gestuais, seu valor poético e espetacular. A ação performática do tecer a renda é a forma como se transmite esse conhecimento. Dessa forma, garante-se o nascimento e a permanência do “ser” rendeira, despertado pelos olhos que acompanham as mãos que tecem, sejam da avó, da mãe, de familiares ou de conhecidas, como destacam os depoimentos :


Eu mesmo comecei olhando. Olhando minhas irmãs fazendo o trabalho delas, e eu fazendo o meu. Então, comparava, né?(...)”. (Marlene)1

Sabe como eu comecei? Vendo os outros fazendo. Aí eu peguei com muita vontade de trabalhar também, vendo aquela minha amiga fazendo. Ela disse: ‘- Vem trabalhar comigo, que eu que te ensino!’ Foi assim!” (sorri) (Severina)


Observa-se que a rendeira, ao compor sua memória individual na peça, recria, reinventa um passado, uma memória coletiva. Assim :


[...] cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios.” (Halbwachs, 2004 : 55).


O ambiente familiar se apresenta como o local apropriado para o nascer da arte da renda. A lembrança do início deste fazer, das pessoas que ajudaram direta ou indiretamente na sua construção, na motivação de se criar um ponto, bem como dos locais de apoio, seja casa de família ou associação, delineiam a memória coletiva da comunidade.


Com base nos depoimentos, a inspiração vem das mães, mas o incentivo vem das avós que se disponibilizam ao ensino da renda, por muitas vezes estarem menos engajadas, economicamente, com sua produção. Nessa linha de pensamento, ressalta-se que “os avós se aproximam das crianças, talvez porque, por diversas razões, uns e outros se desinteressam dos acontecimentos contemporâneos sobre os quais se fixa a atenção dos pais” (Halbwachs, 2004 : 69). Sobre a importância da família nos primeiros passos do ser rendeira, afirma Fátima :


Eu fiquei vendo minha mãe fazendo e eu queria aprender. Só que minha mãe num ensinava, né? Ela num ensinava porque num tinha tempo. Aquilo que ela tava fazendo tinha que vender no final de semana, que era pra comprar o alimento de todo mundo de dentro de casa. Que era disso que vivia, naquela época. E eu sempre pedia pra me ensinar. Aí ela: ‘- Ah! Agora eu num posso! Tô ocupada’. Eu ficava olhando. Eu fiz igual a minha filha fez! Que hoje eu também num tenho tempo pra ensinar a ela. Pegava o lacê, alinhavava tudinho numa almofadinha e ia fazendo. Aí um dia minha tia falou assim: ‘- Ah! Eu vou dar um serviço pra essa menina fazer!’ Aí mãe disse: ‘- Não, num dê não, que ela vai estragar’. Aí, ela me deu a banda de uma blusa. Disse assim: ‘- Sexta-feira eu quero essa blusa pronta!’ Eu peguei e fiz. Minha mãe ficou boba, né? Aí começou a se aproveitar de mim até hoje! (sorri) Minha mãe disse: ‘- Eu num sabia, que ela sabia fazer!’ Minha tia falou: ‘- É! Você nunca tem tempo pra prestar atenção, né? Só correndo...’ Então, eu fiquei fazendo”. (Fátima)

 



Figura 1 : Família da rendeira Zezé : três gerações.
Nota : Da esquerda para a direita: Zezé (avó), Fátima (mãe) e Paloma (neta) – Monteiro.
Foto : Ingrid Fechine.



Compreende-se que as rendeiras reconstroem o passado, a partir do presente quando relembram o início dessa atividade, movidas pela experiência do grupo familiar. Misturam passado e presente numa simbiose perfeita. A família inspira esta reconstrução, sendo as avós as representantes sócio-históricas da renda e testemunhas de um processo significativo das formas dessa arte.


As avós têm aqui o domínio da “palavra-força” que, no caso da renda, irá propiciar o que Zumthor (1993 : 75) fala sobre o dizer das “[...] palavras que fecundam seu ato”, isto é, a voz dará ao ato de tecer o tom do saber-fazer transmitido às gerações. Uma voz que se reconstrói, “[...] formada a partir das memórias de grupos e comunidades [...], uma memória portanto movediça, [...] que se transforma ao se transmitir de geração em geração [...]” (Santos, 2006 : 18).


Por esse aspecto, as rendeiras, no grupo, relacionam suas memórias e suas vozes particulares e da coletividade. Ao dar voz a sua memória e formato à performance, a rendeira constrói textos que se concretizam na escritura da renda, marca da aprendizagem individual e coletiva.


Bruner e Weisser (1997 : 142) enfatizam que “as ‘vidas’ são textos”. Seguindo essa definição, pode-se dizer que as rendeiras vivenciam textos inscritos na voz e no gesto, nas trocas sociais, nas experiências e memórias individuais e coletivas, nas criações dos pontos de renda, no presente, no passado, que culminam no saber-fazer da sua escritura, a Renda Renascença.


A actio desse saber vai unir o olhar e o ouvir que se entrelaçam na busca pela realização da arte. Uma construção de experiências, conhecimentos, memórias e culturas, revelados no desenvolvimento da imagem do ponto que se amplia como texto, como forma especial de dizer dessa peça.


Suas próprias casas e associações de artesanato são espaços do saber na vida das rendeiras. As associações são lugares de criação, onde os saberes e as habilidades se encontram, construindo e reconstruindo as artes. Constitui um território significativo com suas paredes decoradas com a renda. Nesse lugar de criação e “proteção” das rendeiras e de suas produções, tem-se como referência a poética de cada uma dessas mulheres e sua memória coletiva, envolvendo imaginação, recordações e esperanças.


No Cariri paraibano, as associações de rendeiras promovem incentivo, abrigo à produção e à comercialização da Renda Renascença, são elas: Associação das Rendeiras da Renda Renascença do Cariri Paraibano (ARRRCP) ; Associação dos Artesãos de Monteiro (ASSOAM) ; Associação Comunitária das Mulheres Produtoras de Camalaú (ASCAMP) ; Associação dos Artesãos de São João do Tigre (ASSOARTI) ; Associação de Desenvolvimento dos Artesãos de São Sebastião do Umbuzeiro (ADEART).


Antes da criação dessas entidades, as rendeiras associadas de Monteiro, especialmente, viviam completamente submissas aos intermediários, e as peças produzidas se limitavam aos pontos tradicionais : abacaxi, dois amarrados, ilhós, laço, malha, passagem, pipoca, sianinha, torre e traça. Nelas, realizam-se o ensino da renda e seu aperfeiçoamento, como nos cursos de capacitação, que vão do feitio até a exigência do melhor acabamento.

 


Figura 2 : Ponto dois amarrados : ponto tradicional e o primeiro a ser aprendido.

Fonte : Fechine, 2010, p.211.


Seja na associação, em casa, na calçada, debaixo de uma árvore ou no quintal, a rendeira vivencia um espaço de acolhida da arte, de segurança, de conversas, de alegria, do lúdico, do refúgio e da circulação de saberes. Espaços que solidificam a renda como patrimônio cultural, educacional, através das mãos criativas, solitárias, coletivas que, entre sonhos e realidades, constroem sua memória na escritura da Renda Renascença.


2 Comunidade de rendeiras nas linhas do saber: escritura da Renda Renascença, memórias e aprendizagens


Renda Renascença: minha arte, minha força, minha terra,
minha cultura, identidade,identificação
meu texto oral transcrito que constrói meu ser rendeira,
linguagem da mente, do corpo e do coração.


Marca de minha vida que sistematizo na voz e na performance,
imagem que revela os contornos do meu fazer
tecidos com fios da memória.
A letra, meu ponto transcrito com amor ao saber.


Minha voz de mulher rendeira: movente nos fios a sós,
ensinando, ao mesmo tempo, me faz uma aprendiz
o ponto que fala do meu “eu” e dos meus “nós”,
de quem é leitora dessa voz, que no silêncio também diz.


Ingrid Fechine, maio de 2010.


A escritura da renda vai sendo descoberta, interpretada e criada na memória coletiva das rendeiras, no ambiente familiar, com as amigas ou na associação. O processo de passagem do conhecimento em torno do saber-fazer renda é construído pelo conjunto de habilidades individuais e coletivas, numa mistura de observação e prática, de assimilação e criação, cuja integração da multiplicidade das ideias transforma-se em arte. As rendeiras mais antigas passam seus conhecimentos através das gerações, alimentando a memória coletiva com a palavra, o olhar e o gesto. Assim, gerações se encontram e se unem na composição desse saber.


A Renda Renascença está no passado e no presente, nas lembranças do tempo da infância, do divertimento, do lúdico. Era a visão da arte como forma de brincar, como afirmam os depoimentos :


O que mais marca é porque a gente se sentia muito feliz. Quando se ajuntava aquele rebanho de criança, tudo da minha idade, fazendo renda. Porque não só era eu! Todo mundo! E quando o outro vinha, que chegava, dizia: ‘- Ah! Eu também vou aprender!’ Tudo tinha aquela influência pra aprender. Logo a gente não tinha divertimento e o divertimento da gente era quando se ajuntava tudinho que ia trabalhar. E a ganância que a gente tinha! Cada uma que dissesse: ‘- Eu vou fazer mais do que você!’ Quando uma terminava a folhinha... ‘- Eu já terminei a minha!’ Aí, eu dizia: ‘- Ah! Eu também terminei!’ E aquilo era uma farra, era muito bom pra mim. Pra mim, é a maior saudade que eu tenho da minha juventude, era quando a gente se reunia pra trabalhar! [...] A brincadeira da gente já era se encontrar pra renda!”. (Liu)


Eu tenho saudade, assim, das minhas amigas que começaram a trabalhar junto comigo, aí nós ficava fazendo aposta. [...] Aí três, quatro numa sala, ficava cortando aquelas linhas e fazendo aposta. Eu tenho saudade. Apostava as linhas, a gente cortava as linhas pra ver quem era que fazia mais ligeiro”. (Zezé)


A renda como um brinquedo unia vários sentimentos : distração, criação, competição, animação e interação, que se completam, hoje, nos depoimentos, com a palavra “saudade” dos momentos vividos na socialização do conhecimento. Essa recordação é fonte que alimenta o presente, um passado significativo da vontade pessoal e da força coletiva, em família e em comunidade, onde a aprendizagem da renda marca a memória da rendeira.

 



Figura 3 : Peça com vários pontos de Renda Renascença.

Foto : Ingrid Fechine.


Segundo Fechine (2004 ; 2013), com base nas falas das artesãs, a renda, na comunidade, perpassa dez saberes ou predisposições que fazem parte da construção do “ser” rendeira. São eles : o gosto, a vontade, a inteligência, o interesse, a criatividade, a curiosidade, a concentração, a paciência, a habilidade e o dom.


Tecer pela observação de um ponto já concluído, não significa reproduzir ou copiar, mas criar a partir do olhar do leitor. Cada leitor dá o tom de sua interpretação, segundo experiências anteriores, habilidades, conhecimento da renda e sua memória. É um momento de recepção do signo, dos desenhos regionais, com uma leitura pessoal e, ao mesmo tempo, coletiva. Aprende-se pelo interesse e, de maneira solitária, supera-se o desafio de adquirir o conhecimento dos pontos da Renda Renascença, impulsionado pela curiosidade.


Curiosidade assim, que eu via minha mãe fazendo renda e eu achava bonito, também. E eu queria só aprender porque tudo que eu vejo, eu tenho a mania: eu quero aprender! Embora que eu só faça aquela hora e depois eu num faça mais. E foi isso que aconteceu. Eu achava que ia só aprender e num ia fazer mais, né? Mas aí, eu continuei. Era uma coisa naquela época, também, por obrigação, que necessitava mesmo dentro de casa, de fazer. Mas, hoje, o povo acha muito bonito. E, outra coisa, ao dinheiro que sempre tira a gente do sufoco. Ele mesmo me tirou bastante, né? Desde quando eu comecei a aprender, que o Renascenço sempre tirou a gente do sufoco”. (Fátima)


As rendeiras entrevistadas da primeira, segunda e terceira gerações destacam a importância da curiosidade, da vontade, do gosto pelo fazer renda. Morin (2002) aponta a importância da “curiosidade” para o conhecimento. A sobrevivência, por outro lado, mostra-se como o fator que as motiva a não desistirem. Em torno dessa questão, ressalta-se o depoimento da rendeira Marlene que acredita ser a curiosidade o que faz as pessoas se iniciarem na arte da renda :


A maioria é curiosidade. Muitas querem saber como é que se faz a aquilo: ‘- Meu Deus como é que faz esse ponto diferente? Vou tentar, eu vou conseguir!’ Então, ela tem uma curiosidade tão forte que termina conseguindo”. (Marlene)


O depoimento da rendeira Socorro traz outra dimensão : o segredo do saber, ou seja, aprender a guardar o conhecimento como um segredo até o momento de surpreender com sua arte. E, conta :


Ficava calada. Era escondido! (sorri) Mas quando eu aprendi, aí elas perguntavam com quem era que eu tinha aprendido. Eu dizia: ‘- Com ninguém! Eu via vocês fazendo, prestava atenção e quando chegava em casa ia fazer, até que eu continuei fazendo!”


Relembrando, a rendeira sorri, sinalizando o sentido da esperteza e da travessura de criança.


O saber-fazer renda entra na vida da rendeira pelo sentimento por sua arte. Decorrente do gostar vão surgindo a vontade de apreender, o interesse de produzir e o início do seu sonho de construir uma linda peça. Assim, observa, cria e aperfeiçoa sua renda com o olhar e as mãos nos atos de fazer, “desmanchar” e refazer os pontos. Por esse aspecto, reforça a rendeira Socorro :


A pessoa tem vontade de aprender, né? Aí vê um fazendo e faz qualquer coisa. Assim, tenha vontade, pra ver se num aprende! (risos) É... (pensa) e inteligência também, né? Quando a gente tem aquele interesse de aprender, num carece uma pessoa tá em cima: ‘- Ói, faz isso aqui! É assim ó! Tá errado! Desmancha, faz novamente!’ Não, num carece ninguém tá em cima ensinando não! (sorri) Apois eu vi uma mulher fazendo aqui mesmo e aprendi! Ói, só basta eu ver você fazendo qualquer coisa, eu aprendo! Eu aprendi fazer o crochê, olhando o povo fazer, sabe? Ninguém me ensinou. A renda do mesmo jeito e bordar, a mesma coisa! Se você tiver inteligência de aprender algo, você aprende! Mesmo assim é a renda!”


Assim, a renda se forma e se entrelaça com a vida das artesãs e suas memórias. Entre elas, a identificação de cada ponto tecido é, em muitos casos, um fator de reconhecimento da identidade de quem o teceu. Para outras, além da curiosidade, o ato de “manejar a agulha” dá o tom que se precisa para que se identifique a habilidade de uma boa rendeira. Com motivação e paciência, até mesmo quem nunca pegou em uma agulha, aprende. Delineando esses aspectos, ressaltam-se os seguintes depoimentos :


É porque tem pessoas que no pegar da agulha a gente vê que vai aprender... Eu tenho uma menina, ela nunca aprendeu a botar uma linha na agulha! E a Fátima, minha filha, eu tava com o serviço, quando eu saía, ela pegava acabava minha linha. Ela é que nem a Paloma, minha neta, que ia lá, catava minhas linhas, minhas agulhas, botava a almofada no colo e ali fazia. Sem ensinar. Eu num ensinei a nenhuma. Elas aprenderam por elas mesmas”. (Zezé)


Só a pessoa pegar na agulha, já tem o jeito de aprender. Minha filha mais velha mesmo, ela num tem jeito de aprender, de jeito nenhum! Ela num sabe nem pôr a linha na agulha!” (sorri) (Fátima)


Quem num sabe fazer, que num tem habilidade de fazer a renda, já no pegar da agulha e da linha a gente já conhece! Que já pega a linha o contrário. (sorri)”. (Ivani)


Para as rendeiras, a renda pode vir do íntimo, como um “dom” : “Será que isso não é da gente mesmo?”. O dom refere-se a uma característica pessoal, única, singular. As artesãs de Monteiro atribuem a habilidade de fazer renda ao dom, não apenas como uma consequência de socialização do saber, mas como uma capacidade inerente de cada uma, uma potencialidade biológica, que é fortalecida pelo ensino dessa arte.


As crianças aprendem em casa, com a mãe ou a avó, muitas vezes, para colaborar no trabalho, visando, também, à sobrevivência. Dessa forma, a arte da renda é para elas um meio de sobreviver, presente na luta pela vida, na busca pelo valor do seu trabalho, na ajuda familiar, na autoestima, na identificação de cada rendeira e na consciência de seu próprio saber, como mostram esses depoimentos :


Se a gente fizer a renda, a gente tem sempre aquele dinheirinho pra comer. E, se num fizer, num tem nada, num tem emprego, num tem nada, de jeito nenhum. (...) Aí chega em casa: ‘- Ói, quanto eu ganhei, tá vendo? Porque eu sei trabalhar na renda! Se eu num soubesse num tinha ganhado nada!” (sorri) (Socorro)


Tudo que eu tenho dentro de casa, alguma besteira que eu compro é do meu trabalho! A gente se sente feliz quando quer comprar uma coisa, que trabalha e compra! A gente se sente feliz! Que se num fosse a Renascença, como era que eu ia ganhar um dinheirinho pra comprar as roupas pra meus filhos? Calçado, pra mim mesmo, como era que eu comprava? Tem que trabalhar! Eu trabalho e me sinto muito feliz porque o que eu tenho é através do meu trabalho!” (Liu)


Para as rendeiras, portanto, esse conhecimento pode se transformar em compensação financeira e social. A voz das rendeiras fala sobre o dom, a habilidade, a vontade, a responsabilidade de ser filha e/ou neta de rendeira ; a manutenção familiar dessa arte por essa arte, o valor da família, da tentativa, do manejar a agulha e de se descobrir como rendeira, como mostram estes depoimentos :


Se você tem dentro de você aquele dom de artesã, de rendeira, nem precisa outra pessoa ensinar. Só você olhando, você aprende. Mas, é bom assim, você se capacitar, aí sim, outra tem que ensinar. Mas pra você aprender mesmo, se você tem arte dentro de você, ou você é filha de rendeira, ou foi neta de rendeira, você consegue. Tem muitas que são filhas de rendeiras e dizem que não sabem fazer. É não! É porque ela botou na cabeça que não sabe fazer, mas ela sabe fazer! É porque ela nunca tentou. Eu acho que é da genética, porque tem tantas pessoas que dizem: “- Eu sou louca pra aprender e nunca aprendi. Já tentei e não consegui”. Então, eu acho que vem de você mesma. A maioria quando tem numa casa, a maioria, todas fazem. Aquela que não quer fazer é porque não gosta, tem preguiça e botou na mente que não sabe fazer e nem quer.” (Marlene)

 



Figura 4 : Rendeira Marlene tecendo a Renda Renascença.
Foto : Ingrid Fechine.


Eu acho que foi um dom meu, de aprender. Porque eu não só sei fazer o Renascenço, mas sei fazer as outras coisas: crochê, tricô, né? E eu num aprendi com minha mãe isso daí! Eu aprendi só! Eu faço decorações também, pintura! Aí, eu num posso dizer que foi um dom que vem da minha mãe, num foi. Porque minha mãe, ela num sabe fazer essas coisas, só a renda. E eu aprendi essas outras coisas porque eu tenho vontade assim, de aprender. Tudo que eu vejo, a minha vontade é de aprender. Agora, é como eu falei pra você: quando eu aprendo, embora que eu, sabe? num exerça depois aquilo que eu aprendi, mas eu quero aprender!” (Fátima)


De acordo com Bergson (1999), o caráter psicológico age juntamente com o social, ressaltando a questão do corpo e da percepção nesse processo de interação. Por outro lado, segundo Halbwachs (2004), a ênfase está na socialização, definindo a “memória” como um fenômeno que parte da coletividade e das relações sociais entre os indivíduos, cuja memória vai se construindo a partir de lembranças pessoais e coletivas.


Considera-se, com base em Halbwachs (2004), que a memória é algo que vive, permanece e (re)nasce a cada lembrança, a cada gesto, a cada expressão, a cada dia, individualmente ou compartilhada coletivamente, elo entre mente e experiência, conhecimento e vida, numa reconstrução fundamentada no encontro das lembranças.


De fato, percebe-se a referência família-genealogia no saber-fazer renda, bem como a ação criativa em vida e memória que, através das gerações, é transmitida, assimilada e criada na história de vida de cada uma.


A herança do sabe-fazer renda é de suma relevância para as rendeiras, de modo que muitas delas apontam esse fato como determinante, ao afirmarem que uma filha de rendeira é mais capaz de desenvolver esta arte naturalmente, apenas pela observação, do que outras que não possuem rendeiras na família.


Para as artesãs, a inteligência e o dom são essenciais na construção do saber-fazer Renascença. Porém, apesar de identificarem a inteligência como uma das características marcantes do “ser” rendeira, afirmam que ela deve estar apoiada no interesse de tecer :


Tem que ter inteligência, interesse pra aprender, porque num adianta a gente pegar um travesseiro e dizer: ‘ – Eu sei fazer!’ Vai fazer e num sabe de nada, num é? Tem que ter interesse de fazer”. (Socorro)


Assim, a mente rege a força, a voz que exala a memória e a vontade que fazem com que esta arte seja desenvolvida.


Vem da gente mesmo (o saber-fazer renda). Eu acho que o capricho vem de você ali, se você é capaz. E tem uma coisa: você tem que por na sua mente que é capaz de fazer o que quer, desde que tenha a coragem de enfrentar! Agora, se você diz: ‘- Ah! Eu num vou fazer, eu num sei fazer!’ Fixou na mente, você num faz não. Você tem que dizer que faz, que é capaz!” (Marlene)


Aplicando o conceito de inteligências múltiplas, de Howard Gardner, se observa a proximidade da inteligência criativa (visual-espacial) à temática da arte. Gardner (1995 : 15) mostra que “a inteligência espacial é a capacidade de formar um modelo mental de um mundo espacial e de ser capaz de manobrar e operar utilizando esse modelo”, ou seja, dialogando com o processo de ensino-aprendizagem das rendeiras, essa categoria de inteligência é percebida na observação do saber-fazer de outra rendeira, quando a mesma constrói os pontos da renda, ao mesmo tempo em que se verifica o olhar de significados culturais transcritos na criação de novos pontos, baseados nas imagens da região.

 



Figura 5 : Mapa do Brasil feito de Renda Renascença.

Fonte : FECHINE, 2010, p.99.


Por essas reflexões, percebe-se que a identidade da mulher rendeira é construída através do trabalho, da criatividade do fazer e da socialização desse saber, dessa “voz poética” (Zumthor, 1993), que diz da memória, da cultura e da identificação particular nos fios dessa arte, da vida, da experiência e da subjetividade. É pela memória e pela observação que as rendeiras criam suas rendas, falam de suas memórias e tecem suas vidas.


Considerações Finais


Das linhas teço meu verso
Inspirado na minha prosa
A renda feita para vender
Por minha mão habilidosa


Nem todo mundo sabe
É difícil começar
Inicia com o dois amarrados
E termina sem calcular


Contorno e traço
Vou cumprindo meu dever
De memória, identidade
Da cultura e do saber


Ingrid Fechine, julho de 2014.


A informalidade da transmissão de saberes da renda descreve a trajetória do “ser rendeira” na região do Cariri paraibano, seja na observação pela busca do conhecimento, seja na socialização dos saberes rumo à criação. A marca, a identificação do ser rendeira, bem como a transmissão e a recepção desses saberes, partem de uma escolha, uma opção que vai do o ambiente de trabalho aos pontos tecidos, uma vez que esta referência no momento em que se tece é definida por uma forma de aprender, um significado cultural, um gosto por fazer um ponto, uma exigência do mercado, da moda ou da memória, seja individual ou coletiva.


Assim, a transmissão de saberes da arte da renda é delimitada por um espaço, seja ele a calçada da casa, a casa ou a associação, com base na “observação” da performance de outra artesã, que pode ser sua mãe, sua avó ou sua amiga. “Nesse contexto, ser rendeira é encontrar um mundo de possibilidades para a criação de sua arte. É ter em mente a necessidade de produzir. Ser rendeira é renascer a cada criação e se (re)construir como artesã” (Fechine, 2007 : 91).


Reconhecer o seu saber e saber que se é capaz dão às rendeiras a autoestima e o profissionalismo. Para elas, a capacidade de tecer é identificada pelo capricho e a coragem de tentar e não ter medo de errar. Esse medo pode ser trabalhado, também, para a superação de limitações do cotidiano.


Compreende-se pela voz dessas mulheres que o fazer renda é, ainda, um dom, um privilégio de poucas. Vai além do saber-fazer e reflete sobre algo que passa pelo divino, um elo entre Deus e a rendeira, um presente a ser desenvolvido pelo tripé que envolve a mente, as mãos e o coração.




Referências


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BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembrança de velhos. 10 ed. São Paulo: Companhia das letras, 2003.


BRUNER, Jerome, WEISSER, Susan. “A invenção do ser: a autobiografia e suas formas”. In: OLSON, David R., TORRANCE, Nancy. Cultura Escrita e Oralidade. Tradução: Valter Lellis Siqueira. 2 ed. São Paulo: Ática, 1997, p.141-161. (Coleção Múltiplas Escritas)


FECHINE, Ingrid Farias. Brasões de saberes populares: memória das rendeiras do Cariri Paraibano. Dissertação (Mestrado em Educação) João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2004.


_____ . “Cultura da renda, memória de rendeira: contando uma história de vida”. In: FECHINE, Ingrid, SEVERO, Ione (orgs.). Cultura Popular: nas teias da memória. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2007, p.91-104.


_____. Tessituras da voz: cultura e memória da ‘Renascença’ na voz das rendeiras da Paraíba, Brasil. Tese (Doutorado em Linguística). Tese em Co-Tutela Universidade Federal da Paraíba e Université Paris Ouest Nanterre La Défense. João Pessoa: Universidade Federal da Paraíba, 2010.


FECHINE, Ingrid. “Escritura da Renda Renascença: memória de rendeiras, brasão do saber-fazer”. In: FECHINE, I, ASSIS, C L, NASCIMENTO, R. Tecendo os fios de saberes convergentes: escrita, educação e memória. Campina Grande: EDUEPB, 2013, p.105-139.


FONSECA DOS SANTOS, Idelette Muzart. Memória das Vozes: cantoria, romanceiro & cordel. Trad. Márcia Pinheiro. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2006.


GARDNER, Howard. Resumidamente. In: Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. Porto Alegre: Artmed, 1995 (Reimpressão 2007), p.12-18.


HABWACHS, Maurice. Memória Coletiva. Tradução: Laís Teles Benoir. São Paulo: Centauro, 2004.


MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Tradução: Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya. Revisão técnica de Edgard de Assis Carvalho. 5.ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2002.


THOMPSON, Paul. A voz do Passado: história oral. Tradução: Lólio Lourenço de Oliveira. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.


ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: A “literatura” medieval. Tradução: Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. SãoPaulo: Companhia das Letras, 1993.






1 Todas as citações são informações verbais.

 



 

 

Pour citer cet article:

 

FECHINE, Ingrid. «Tecendo memórias nas linhas do saber do 'ser rendeira'», Plural Pluriel - revue des cultures de langue portugaise, n°12, printemps-été 2015, [En ligne] URL: www.pluralpluriel.org. ISSN: 1760-5504.