Numéro 4-5: comptes rendus - Mínima mímica: ensaios sobre Guimarães Rosa
| GALVÃO, Walnice Nogueira. Mínima mímica: ensaios sobre Guimarães Rosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, 350 p. |
Em Mínima mímica, Walnice Nogueira Galvão manifesta-se mais uma vez a serviço dos mistérios da obra de Guimarães Rosa. O olhar atento e analítico dessa autora percorre as narrativas rosianas para exaltar o sentido universal de uma obra complexa quanto a riqueza dos detalhes em busca de poesia.
No ensaio que dá título ao livro e que se situa na segunda parte, Walnice trata de “Orientação”- conto de Tutaméia – focalizando a experimentação linguística, tão cuidadosamente articulada e valorizada por Guimarães Rosa. Envolve a brincadeira com sons e sinais, a recorrência a vocábulos arcaicos, regionais e a neologismos, o emprego de palavras e sintagmas que evoquem coisas chinesas ou japonesas e a campanha contra os lugares-comuns ou clichês. A autora expõe as metáforas da incompatibilidade desenvolvidas no decorrer da narrativa e mostra como tal relação de oposição, reiterada em todos os níveis da narrativa, chega ao fonêmico i/o: /i/ retomando Quim e /o/ se referindo a Rita Rola. Em dois momentos a permeabilidade se deixa entrever: quando o sentimento dele, de tão forte, a tornava mais bonita, mesmo aos olhos dos outros; quando a transformação – espécie de aprendizado e orientação – dela se evidencia após a partida do chinês. Essa combinação de elementos antinacionalistas e anti-racistas exalta a beleza da miscigenação dando origem ao que a autora sabiamente caracteriza como “fábula de aculturação às avessas”. (Galvão, 2008, p. 217).
O livro apresenta três partes intituladas, respectivamente: “Mitológica rosiana”, “Reunião” e, por fim, “Sertanejos e caipiras”, encerrando um todo complexo e enriquecedor. A primeira parte é formada por três ensaios : no primeiro, “O impossível retorno”, a autora analisa “Meu tio o Iauaretê” – conto publicado em Estas estórias – e identifica três invariantes que farão com que a combinação animal, branco e índio seja construída no conto de forma a justificar os assassinatos nos valores do contexto em que eles se inserem. Ademais, o título da análise se refere justamente ao processo de perda da identidade por parte do protagonista que é descrito com base na escolha do “cru” (ser onça) em detrimento do “cozido” (ser homem). Um avez a escolha feita, qualquer retorno se torna impossível uma vez que a personagem cai em perdição.
No segundo ensaio, Galvão se desloca para as Primeiras estórias e aborda “A terceira margem do rio”, conto que, pensa a autora ter sido escrito por Guimarães Rosa “em estado de graça” pela tamanha beleza, densidade e profundidade do texto. Nesse ensaio, Walnice trabalha com temas como o medo diante “do que não é”, do impalpável, do desconhecido, enfim, do mistério e também a questão dos laços de família e dos nexos de amor e culpa que unem pais e filhos. Já no último ensaio dessa primeira parte, a autora trata de Matraga e a sua marca, partindo dos escritos sobre São Francisco, passando pelo teatro dos mistérios cristãos medievais, pelas vidas lendárias de santos prodigiosos das seletas populares, pela literatura de colportage de matéria cristã, pelo romance de cordel tipo “vida de santo”, até chegar em Matraga e, também nele, encontrar uma corrente de cristianismo popular, em que a divindade se faz presente e o sagrado encontra-se misturado à vida cotidiana. É com base nessa densa pesquisa que a autora mostra de que modo o catolicismo – por ela caracterizado como providencialista e rústico – ou melhor, a fé dos simples, encontra sua expressão em épocas tão diversas numa relação com a realidade do texto que, por sua vez, é feito não apenas para ser lido, mas, sobretudo, recitado, no intuito de inspirar seus leitores/ouvintes a tentarem decifrar as figuras, marcas e sinais que neles se encontram.
A segunda parte do livro reune onze ensaios sobre os mais diversos temas rosianos. Dentre eles, “Sobre o regionalismo”, evoca o modo como Guimarães Rosa sintetiza e supera as duas vertentes em voga na época de seu surgimento: o regionalismo e o romance espiritualista ou psicológico. A autora faz referência a uma carta enviada por Guimarães Rosa ao seu tio Vicente Guimarães – carta presente no livro Joãozito: infância de João Guimarães Rosa – e que revela valiosas informações acerca da construção poética de Rosa e do modo como ele buscava alcançar o justo equilíbrio entre o nacional e o universal. Em “Metáforas náuticas”, são analisados, dentre outros elementos, o desdobramento da oposição espacial entre sertão e oceano, uma das variantes possíveis da oposição seco versus úmido, contida no título Grande sertão: veredas e, principalmente, as alusões oceânicas contidas em “Desenredo” – conto de Tutaméia. Em “Literatura e estudos de religião”, Walnice mostra que o estudo da religião faz-se extremamente necessário em estudos literários – para compreender “A hora e vez de Augusto Matraga” – como também nos estudos sociológicos e antropológicos, como foi o caso de Os parceiros do rio Bonito, de Antonio Candido, e Os errantes do novo século, de Douglas Teixeira Monteiro.
Em “As listas de palavras”, a autora nos conduz para os materiais mais numerosos e peculiares constantes do Arquivo Guimarães Rosa: as folhas avulsas que contêm as mais diversas riquezas tanto para estudiosos como para curiosos, como, por exemplo, listas de palavras e de locuções, possíveis títulos, notas de leitura, lembretes e observações. Através do estudo de tais listas como prototextos e paratextos, a autora busca representar os diferentes patamares de criação do texto rosiano. Galvão percorre ainda os heterônimos empregados por Guimarães Rosa para mostrar de que maneira Viator desapareceu quando suplantado por João Guimarães Rosa e como os anagramas e demais heterônimos sugerem poetas envergonhados esperando pelo reconhecimento. Outras fontes importantes para o estudo da construção poética do autor consistem nos livros escritos pela filha, pelo tio, além da bibliografia preparada por Plínio Doyle, a correspondência com os tradutores, a entrevista a Gunther Lorez e o Léxico de Guimarães Rosa da autoria de Nilce Sant’Anna Martins, todos comentados no ensaio intitulado “Relembramentos e Léxico”. Juntam-se a essas fontes, as riquezas desdobradas em “O nome do pai” no que diz respeito principalmente às cartas que Guimarães trocava com o pai e demais informações a respeito de sua infância, seu aprendizado e suas conquistas.
Em “Página de jornal, página de livro”, a incursão pelos diferentes tipos de relação que alguns escritores estabeleceram com o jornalismo, determina o “tipo refratário” de Guimarães Rosa para quem o jornalismo não tem a menor importância pelo fato de ser aleatório e subjugado pela literatura. A autora trata enfim dos periódicos que receberam destaque pelo papel que desempenharam no desenvolvimento da literatura e da crítica literária.
No penúltimo ensaio dessa segunda parte, Primeiras estórias enfoca a excentricidade – no sentido etimológico – das personagens e a semelhança estrutural dos contos, como, por exemplo, no clímax ou, em alguns casos, no anticlímax, ou no foco narrativo que elege um sujeito plural e sempre no humor presente nas mais diversas atmosferas.
O último ensaio, “Um vivente, seus avatares”, trata da narração de Riobaldo em Grande sertão: veredas e das suas metamorfoses em diferentes personagens dentro de uma mesma narrativa.
Na terceira e última parte do livro, Galvão se dedica, primeiramente, a falar sobre Douglas Teixeira Monteiro e o modo belo, erudito e explicativo como ele trabalhou na linha da sociologia da religião com as metamorfoses contemporâneas. Em seguida, a autora analisa a curiosa trajetória de Afonso Arinos e o que o aproxima de autores como Euclides da Cunha, Mário de Andrade e Guimarães Rosa ; com esse último principalmente no que diz respeito ao apego ao imaginário do sertão, envolvendo em suas obras não somente a paisagem mas, sobretudo, a humanidade que a povoa. Por fim, Walnice Galvão dedica o último ensaio de sua obra às “Metamorfoses do sertão”, texto voltado para a análise da produção cinematográfica com fundamentos na criação literária, tanto no que tange ao regionalismo quanto à literatura recente de cunho acentuadamente urbano e até metropolitano.
Instigante, instrutiva, encantadora: Mínima mímica é um presente para os estudiosos da obra rosiana.
Vanessa Chiconeli Liporaci
Universidade Estadual Paulista/Faculdade de Ciências e Letras-Araraquara
Doutoranda


