O Imigrante : da selva vegetal de Ferreira de Castro à selva urbana nos recentes romances portugueses
Miguel Real
Introdução
A Selva, possuindo uma dimensão social, que o conteúdo do romance evidencia, é, porém, quanto ao estilo, profundamente naturalista, salientando mais a estranheza e a anormalidade dos comportamentos humanos do que a evidenciação das relações sociais colectivas estabelecidas justa ou injustamente na sociedade. Se a injustiça social, a miséria económica, o isolamento, o desenraizamento dos seringueiros, provindos na sua maioria do Ceará e do Maranhão, o endividamento no armazém do Binda, a ausência de perspectivas sociais optimistas de futuro motivada pela contínua queda do preço internacional da borracha, substituída gradualmente por produtos químicos sintéticos, constituem factores realistas que animam o romance; se a atenção ao pormenor concreto da realidade – nomes de árvores, de animais, descrição de instrumentos de trabalho, de locais de trabalho, de repouso, de entretenimento, a narração pormenorizada da paisagem – são igualmente componentes realistas de A Selva, por outro lado, o cuidado posto em elementos dramáticos, de carácter vicioso, como o embrutecimentos dos seringueiros através da cachaça, a ostentação da autoridade e do poder absolutos de Juca Tristão sobre o antigo escravo Tiago, a narração de cenas de zoossexualismo, a hispostasiação de sentimentos negativos da humanidade, como o ciúme, a posse sexual sobre a menina filha de Lourenço e sobre a idosa D. Vitória, mãe de Alexandrino, e o desejo de Alberto sobre o corpo de D. Yáyá, testemunham elementos fortemente naturalistas no desenho do romance.
Do mesmo modo, em recentes romances portugueses, igualmente com uma forte componente naturalista e realista, evidencia-se a brutalização a que os imigrantes estão submetidos nos estaleiros das obras, a promiscuidade existente nas suas casas (três, quatro famílias vivendo em andares de três assoalhadas), a entrega consolatória ao grogue (aguardente de cana do açúcar) entre os cabo-verdianos e guineenses, à vodka e à aguardente portuguesa entre os imigrantes do Leste e à cachaça entre os trabalhadores oriundos do Brasil, a exploração desenfreada dos salários baixíssimos a que se sujeitam devido a ausência de documentação legal, a escravização a que máfias russas, ucranianas e romenas os forçam, confiscando-lhes o passaporte. Ainda que passado no ambiente urbano, o grau de humilhação e de vexação da dignidade humana não é menor que o descrito no seringal “Paraíso” por Ferreira de Castro em A Selva.
Assim como no romance de Ferreira de Castro a componente mais fortemente naturalista é dada através da descrição da selva, ela própria, como personagem, do mesmo modo nos recentes romances portugueses a cidade ostenta-se como uma “selva de cimento”, tão devoradora das intenções humanistas dos imigrantes quanto a selva amazónica devorava os desejos dos retirantes miseráveis do sertão que para ela vinham buscando riqueza.
A selva é descrita através de dois conjuntos semânticos de referências que, cruzados, singularizam uma patente “anormalidade”, que o homem nunca conseguirá racionalizar e superar, integrando-a nas instituições “normais” da sociedade: 1. – a estranheza; 2. – a ameaça. É justamente no sentido da estranheza e do esmagamento dos desejos individuais, ambos provocados pelo desenraizamento natural, que a cidade se reflecte na vida dos novos imigrantes. Repete-se em Lisboa – espaço privilegiado dos romances que analisaremos -, a chegada de Alberto a Belém do Pará, primeiro, depois ao seringal do Rio Madeira no Justo Chermont. A selva vegetal de Ferreira de Castro transforma-se em autores recentes da literatura portuguesa numa selva de betão e cimento, tão humanamente estranha e ameaçadora quanto aquela era naturalmente ameaçadora e estranha.
A Selva vegetal e literária
Os descendentes dos antigos aventureiros, temerosos do poder estonteante de forças instituais abrigadas pela selva amazónica, tinham-se instalado em cidades, nas margens do rio, buscando segurança mútua. Hoje, como no passado, a selva permanecia atractiva mas aterrorizante. O narrador qualifica-a de “um aglomerado exuberante, arbitrário e louco” (p. 76), insubmisso ao poder racional dos homens, justamente como a cidade de hoje, deglutidora da vontade humana. Ao modo de uma massa humana irracional e ululante, na selva só a “colectividade imperava (…): o indivíduo vegetal despersonalizava-se” (p. 77), e os seus guardiães, os índios perintintins, como monstros ou titãs bárbaros, provindos do fundo do tempo, erguidos directamente de forças instintuais da terra, combatiam sem honra, matando traiçoeiramente, escondendo-se nos troncos secos das sapobemas, decapitando os brancos e fugindo com a cabeça destes. Os índios bárbaros são remetidos hoje para a figura literária das máfias russas e ucranianas, tão bárbaras e selvagens quanto aqueles o eram. Por todo o lado, emergem “rumores estranhos e imprecisos – uma rala-rala sem nexo” (p. 79), que confundem a razão humana; Alberto não consegue pensar racionalmente: “o seu pensamento não tinha continuidade, fragmentava-se, tudo atraía e tudo abandonava à fadiga mental” (p. 80). Para se sobreviver na selva, é-se forçado a abandonar a lucidez de consciência, a clareza dedutiva da razão e a reduzir a existência ao estatuto de animal, e, por isso, Firmino, seringueiro companheiro de Alberto, designa os índios perintintis por “bichos” (p. 85), como hoje é figurado o imigrante, sobretudo o negro, um “bicho” promíscuo a que se pede que execute os trabalhos imundos vomitados pela cidade do progresso, eminentemente cosmopolita, centro de Poder, de ambição política individual, espaço social mundano, festivo, feérico (a iluminação multicolorida, os centros comerciais), lugar próprio do comércio e da moda, da ostentação, da vaidade e da riqueza.
A selva evidencia-se, assim, como imagem literária renovada do “Adamastor” d’ Os Lusíadas, mas, diferente deste, não se deixa vencer pela ousadia e pelo esforço humanos: “A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria (…) E o homem, um simples transeunte no plano do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo” (p. 84). Dominado por uma “estranha beleza” (p. 85), a selva existia como um “mundo virgem, ainda não tocada pelos conceitos humanos” (p. 85), possuindo o “ar enigmático” de uma bárbara grandiosidade.
Mais do que uma atmosfera espacial e social neutra, a selva, exactamente como a cidade no romance português actual, figura-se no romance de Ferreira de Castro como uma verdadeira personagem colectiva, tanto dotada de personalidade própria quanto desencadeadora ou inibidora de acção alheia, justamente como a cidade actual. A selva, por si, enquanto personagem, não age, mas a sua presença força a reacção das outras personagens, seja individualmente, alterando-lhes o estado anímico, pervertendo-lhes a personalidade, seja colectivamente, criando a atmosfera geral propícia ao desencadeamento de acções patológicas. A selva não se estatui, assim, como um espaço ficcional neutro, mas, diferentemente, como o elemento vital – tão vital e tão hipostasiado que dá nome ao próprio romance – propiciador do enredo que move a totalidade do romance. Diferentemente do que aparenta a história narrada - a história da existência de Alberto durante o exílio político -, uma análise mais aprofundada detecta que A Selva intenta retratar, primeiro, a selva como ambiente natural exterior e desafiante ao toque civilizacional humano, e, segundo, o efeito de perversão que este cria no homem, desamarrado dos constrangimentos da educação social. Estamos, assim, longe das temáticas neo-realistas e próximos das temáticas naturalistas, as primeiras espelhando no homem o esforço de luta pela libertação económica e social, produto do progresso e da marcha civilizacional da História; as segundas, sobrevalorizando aspectos animalescos da humanidade e as características perversas ou viciosas no seio de uma sociedade em conflito consigo própria. Em A Selva, o homem mais polido pela educação e pela cultura, economicamente prestigiado, pertencendo à elite comercial de Manaus, como Juca Tristão, abandona-se a ímpetos bestíferos de domínio sobre o outro, (como hoje os Conselhos de Administração das grandes empresas de obras públicas, explorando as massas negras de imigrantes) castigando (a utilização do chicote sobre os seringueiros fugitivos), humilhando (a prova a que submete Tiago, disparando sobre a sua cabeça), explorando os trabalhadores, forçando-os a permanecerem eternamente ao seu serviço através da manipulação das dívidas; Albino e Caetano, elementos de uma possível classe média do seringal, desprezam os seringueiros, sendo-lhes indiferente o seu sofrimento, figurando-os como meros animais de trabalho, como hoje a classe média urbana procede; senhor Guerreiro e D. Yáyá, sobrevivendo entre a rotina bonançosa do dia a dia, figuram a serenidade possível entre o aluvião de pulsões bestíferas, uma serenidade estóica, céptica e resignativa, sublinhando elementos civilizatórios como escape (as refeições com aprumo, os trajes limpos, o desejo de possuírem uma ”casa” onde possam comer em família, sem a presença de Juca Tristão, o entretenimento racional do jogo das palavras cruzadas); os próprios seringueiros, cada um a seu particular modo, ostentam chagas patológicas causadas pela influência dominante da selva, bestializando-se, de que as relações sexuais com animais constituem supremo exemplo. Alberto, que veementemente criticara este acto por parte de Agostinho, equiparando-o a um dos mais selvagens actos que um homem poderia cometer, acaba por ceder, atormentado pelas recordações do corpo nu de D. Yáyá no banho, e pratica acto idêntico. Esta submissão de Alberto, monárquico, estudante da Faculdade de Direito de Lisboa, combatente político por elevados ideais, aos “baixos instintos” que lhe pulsam no corpo, acrescido da tentativa de sedução da velha D. Vitória, constituem a prova máxima do enviesamento mental e da redução animal da personalidade social do homem quando confrontado com um meio natural que o força a despir-se de preconceitos educativos, como actualmente os imigrantes do Leste, de nível académico superior, que se humilham em trabalhos humildes, embebedando-se e provocando encrencas no seio da sua comunidade de origem.
Constata-se, assim, que A Selva se reporta mais a um quadro social civilizacional e menos a um quadro social conjuntural, especificamente temporalizado, como é o caso dos romances neo-realistas; que a descrição da exploração dos trabalhadores do seringal e dos retirantes do Ceará se enquadra numa visão narrativa maior, de carácter filosófico, que intenta atingir o coração da natureza humana; que a civilização é encarada como máscara do comportamento social, progressivamente realizada através de um ingente esforço de contenção das pulsões egoístas do corpo, vazada tanto em códigos legislativos repressivos quanto na enformação mental da criança pela educação; porém, sob esta película civilizacional, abafante da barbária social e da bestialidade individual, reina ameaçador e pulsante um “coração das trevas”, no agudo dizer de Eugénio Lisboa, tão vivo e de intensidade tão sólida quanto o primeiro. A Selva é não só a descrição da existência de um “coração das trevas”, enquanto romance, mas igualmente a confissão pelo autor de que, na vida das sociedades civilizadas, o terror desta força absoluta indomesticável, que pode ser recalcada, mas não definitivamente domada ou aniquilada, pode irromper a qualquer momento, seja em forma de ameaça individual, seja em forma de guerra colectiva, seja, ainda, em forma de imigração massiva.
Representação literária da nova selva – a cidade
A representação social das diversas comunidades de imigrantes da Europa do Leste recebeu a sua primeira imagem estética na ficção portuguesa recente em quatro textos que, de certo modo, como textos fundadores, a cunham de uma figuração emblemática e simbólica. Referimo-nos a três romances, O Sol da Meia-Noite de Manuel da Silva Ramos, Meu único, grande amor: casei-me, de Manuela Gonzaga, e A Sopa, de Filomena Marona Beja, e a uma peça de teatro, Quarto Minguante, de Rodrigo Francisco, representada pela Companhia de Teatro de Almada, no Teatro Municipal desta cidade ao longo dos meses de Março e Abril de 2007. Como referimos, a atmosfera de terror e assombro que perpassa em A Selva sofre uma actualização nestes quatro textos, com a substituição do elemento telúrico vegetal pelo elemento humano urbano.
São os seguintes os signos desta figuração estética nos três textos citados:
- – A metáfora do estranheza, da marginalidade linguística e social, imposta pela comunidade de acolhimento, exemplificada muito perfeitamente pela personagem “Enfermeira” da peça de teatro de Rodrigo Francisco. A “Enfermeira” nunca fala, apenas trabalha, cumprindo correcta e eficazmente as suas funções. Trata-se de uma mulher alta, esguia, de olhar azulíneo, competente, cobiçada sexualmente pelos doentes. Socialmente constrangida, a “Enfermeira” limita-se a obedecer, impondo-se pela sua dedicação e seriedade. Do mesmo modo, em Meu único, grande amor: casei-me, de Manuela Gonzaga, a empregada doméstica das personagens Vera e Clara, é uma médica ucraniana solitária, Oleena Radenko, esmagada pelo dever do trabalho como único modo de ser aceite pelas famílias portuguesas;
- – A metáfora do desenraizamento e da promiscuidade, figurando a dissolução dos costumes e tradições de origem e a aproximação a um certo tipo de marginalidade, simbolizada, em Manuel da Silva Ramos, pela ida dos homens às prostitutas da zona do Intendente, em Lisboa. Do mesmo modo, “Manuel, o Escritor”, a personagem principal da novela e o seu narrador, cria uma nova palavra portuguesa para designar o acto sexual livre entre um homem português e uma mulher ucraniana: “kievaginação”;
- – Se, numa escala de comportamentos simbólicos, se se considerar extremadas estas duas figurações estéticas – a do absoluto mutismo e a da promiscuidade –, efeito estilístico de paródia caricatural sobre a realidade, a terceira figuração, presente em A Sopa, de base realista, tanto no retrato colectivo criado quanto no estilo da narração, evidencia-se como a mais consentânea com a vivência quotidiana das comunidades de imigrantes da Europa do Leste, cujo signo estético é conferido pela metáfora da exclusão, efeito do cruzamento social e psicológico entre a “estranheza” e o “desenraizamento”.
Como Ferreira de Castro em A Selva, Filomena Marona Beja apresenta-nos em A Sopa uma galeria de excluídos habitando ou peregrinando em torno de um antigo armazém de carvão das docas de Lisboa, supervisionado e organizado por uma Fundação não-governamental de assistência humanitária, cujo pessoal, bem como a sua Presidente, vivem de subsídios governamentais e de filantropia empresarial. Junto com os sem-abrigo, vive Anselmo, médico, disfarçado de pedinte, que estuda ao vivo a comunidade para sobre ela escrever um artigo científico para a revista Lancet, uma personagem de certo modo semelhante a Alberto, de A Selva, ambos participantes involuntários da tragédia da imigração. Entre todos, sobressai Kiev, de verdadeiro nome Sergei, um externo por quem a assistente social Rosa (mais tarde, D. Camila, quando, por via de um estágio em Madrid, sobe na hierarquia da Fundação, passando para o escritório central) se apaixona; Kiev será sovado pelos restantes “russos” por não pagar a quantia mensal obrigada pela “máfia” russa ou - o romance não o explicita - por forçar os outros a pagá-la; é encontrado no hospital pelo enfermeiro Salomão da Fundação. Uma das primeiras figurações da comunidade de imigrantes do Leste na literatura portuguesa, A Sopa representa-a através da secura de comportamentos dos seus elementos, munidos de uma civilidade polida e humilde, uma disciplina assumida e contida, simbolizada no azulíneo frio e imóvel do olhar, que explode em violência no interior da própria comunidade migrante, como em A Selva no interior da comunidade de trabalhadores do seringal.
Fresco dos excluídos do novo Portugal de princípios do século XXI, A Sopa, virando as costas ao contentismo nacional, destaca o pior do cosmopolitismo português, evidenciando tanto os portugueses não-integrados socialmente (Victor, Fernando, Nela, José António…), para os quais, devido à sua mentalidade e ao seu baixíssimo nível de escolaridade, nenhuma formação existe que os insira no viver social electrónico dos dias de hoje (como o prova a inadaptação de Fernando –antigo mecânico de bicicletas em França – ao sistema informático que rege o economato do armazém), quanto os desorientados imigrantes excluídos das benesses da riqueza que ajudam a criar, tal como os seringueiros de A Selva.
Neste sentido, a comunidade russa e ucraniana, que a autora-narradora não distingue entre si, integra-se no conjunto de outras comunidades imigrantes (negra, das ex-colónias portuguesas) e na comunidade dos sem-abrigo de Lisboa (ex-soldados da Guerra do Ultramar sofrendo de stress de guerra, ex-emigrantes portugueses mal sucedidos em França, emigrantes portugueses da segunda geração expatriados para Portugal por causas ligadas ao consumo e tráfico de estupefacientes). Neste sentido, a figuração estética apresentada por Filomena Marona Beja não isola os imigrantes do Leste das restantes comunidades marginalizadas pelo sistema político-social português. Por isso, descrevendo retratos semelhantes para as outras comunidades, é pelos seus traços físicos e pela sua competência no trabalho que a autora-narradora isola a comunidade de imigrantes do Leste da Europa, destacando um dos seus elementos, “Kiev”, como uma das personagens principais do livro, vitima da nova selva urbana. Enquanto retrato realista do conjunto da comunidade russo-ucraniana, Filomena Marona Beja sintetiza as duas metáforas literárias de Manuel da Silva Ramos, de Manuela Gonzaga e de Rodrigo Francisco, superando-as numa descrição mais completa: os homens são frios, o seu olhar azul e gelado, fixo, não olham directamente os portugueses, isolam-se de negros e de portugueses, apresentam-se como desenraizados, não protestam, parecendo esperar sempre qualquer coisa. Justamente como em A Selva os seringueiros esperam conseguir vencer as dívidas para retornarem a suas terras, em A Sopa, como externos da “Fundação”, esperam a esmola de uma sopa vazada em largos copos de plástico até que um dia, como por milagre, a vida melhore:
“Impressionava aquilo de os russos não dizerem nada.
Seria de esperar que, pelo menos, trocassem umas palavras entre eles. Contudo, fundiam-se no silêncio. Possivelmente, por desconfiança, deixavam-se ficar no exterior da Fundação como se não existissem. O vento que enrijava, vindo do rio, batia-lhes nos corpos. Continuavam parados. Sem gestos.
Não se fazia ideia da altura em que aquela gente teria começado a aparecer. «Foi de repente», dizia-se.
E quem teriam sido? Quais as suas vidas, antes de se arriscarem aos passadores?
A esse propósito corriam muitas versões, algumas de espantar. Mas, com vistos caducados, sem contratos de trabalho nem números de contribuinte, sonegara-se-lhes a identidade. Agora eram clandestinos, «ilegais», emendavam as autoridades.
Chamassem-lhes como quisessem. Tudo indicava que se tinham tornado escravos.
Sendo o refeitório a única razão de ali virem, receber restos [de comida] haveria de os humilhar.” (pp. 28/29)
Tal como Ferreira de Castro designa os seringueiros como os novos escravos do Norte do Brasil, Filomena Marona Beja designa os imigrantes do Leste como os novos “escravos” de Portugal, aludindo, no nosso inconsciente colectivo, aos trabalhos humildes e serviçais realizada pela antiga comunidade negra e moura escrava até aos fins do século XVIII, libertada da escravatura no consulado do Marquês de Pombal. Assim, a comunidade do Leste da Europa é identificada como os modernos escravos do Portugal europeu repleto de centros comerciais, abundante de estádios de futebol, o Portugal das auto-estradas e vias rápidas, da profusão de carros próprios, em síntese, o Portugal cosmopolita da década de 90 e dos princípios do século XXI.
Evidenciando a metáfora da estranheza, como a autora-narradora descreve fisicamente estes novos “escravos”? Os homens são “descorados”, pálidos (“continuava-lhes a palidez”), todos iguais na fisionomia (“fixar um era o mesmo que fixar todos”), desprovidos de maneiras ocidentais, comendo laranjas e kiwis com a casca, olhos azulíneos, imóveis, fixos, frios, e – cliché social repetido esteticamente – com “um dente de ouro” a espreitar entre os lábios.
Entre a comunidade russo-ucraniana, destaca-se a personagem “Kiev”, nome que as empregadas da Fundação lhe atribuem por desconhecerem o seu real nome. Quando este começa a aprendizagem da língua portuguesa e consegue fazer-se entender, declina o seu verdadeiro nome, “Sergei”. Nos protocolos de recepção literária por parte do leitor, este esperaria que a passagem entre o falso nome “Kiev” e a aceitação do verdadeiro nome da personagem, “Sergei”, correspondesse à passagem entre a hostilidade e o isolamento e a real integração de Sergei na comunidade de acolhimento. Porém, a autora-narradora frustra este intento em dois momentos narrativos: primeiro, a Fundação não aceita Sergei como interno, condenando-o à marginalidade residencial e existencial; segundo, Sergei é perseguido pelos seus próprios companheiros de comunidade, findando por dar entrada no hospital e, posteriormente, retirado para as camaratas da Fundação; finalmente, é envenenado por Nela, uma sem-abrigo idosa e louca, portuguesa. Isto é, o conflito intracomunitário no seringal “Paraíso” projecta-se no conflito intracomunitário no armazém dos sem-abrigo junto ao Tejo. Assim, a integração de Sergei nunca se dá, representando-se ficcionalmente, deste modo, o verdadeiro impasse existente entre Portugal e a comunidade dos imigrantes dos países da Europa do Leste – um desconhecimento e uma desconfiança mútuas – reproduz a estranheza de Alberto e dos trabalhadores da borracha face a Juca Tristão. A autora-narradora esforça-se para operar esta integração, criando um enlace amoroso entre Sergei e Rosa, assistente social da Fundação. Rosa tenta integrar Sergei, apresenta-o à Directora da Fundação e Sergei oferece flores à Directora, amores-perfeitos colhidos nos jardins camarários das Docas de Lisboa. Porém, o regulamento da Fundação não permite, e Sergei não é aceite. Esconde-se nos antigos frigoríficos de armazéns do bacalhau, onde Rosa lhe leva comida e – marca social da comunidade russo-ucranina -, Sergei anseia que Rosa também lhe leve “aguardente”.
Metonímia da sua comunidade de origem, Sergei, enquanto personagem, como Alberto de A Selva, constitui-se como uma espécie de “tipo” literário universal ou geral, identificador singular dos estados, situações e problemas sociais e existenciais do todo da comunidade. Com efeito, reflectindo a realidade social em perfeição, as relações de acção e intriga estabelecidas entre Sergei, Rosa e a comunidade russo-ucraniana constituem-se como representações paradigmáticas das provações sofridas pela comunidade de imigrantes dos países do Leste europeu, repetindo o sofrimento físico e existencial de Alberto. Este consegue abandonar a Amazónia, Sergei não é tão feliz e morre. De facto, o anúncio do amor entre Sergei e Rosa e, depois, a interrupção abrupta desta união constituem-se como figuração estética da total impossibilidade temporal actual da união de confiança mútua entre a comunidade russo-ucraniana e os portugueses. No romance, tudo contribui para o levantamento de uma muralha separadora entre Sergei e Rosa. Rosa parte para Madrid, para frequentar um curso de especialização em assistência social, e Sergei, após várias peripécias, morre, frustrando-se o sucesso amoroso de ambos.
Como personagem metonímico, Sergei sofre o que sofrem os elementos da sua comunidade na nova selva urbana – patrões que lhe não pagam, caducidade do visto, situação de ilegalidade, forçado a pedir a esmola da comida a associações não-governamentais, alcooliza-se, sujeita-se a trabalhos indiferenciados e avulsos, inferiores à sua vocação original ligada à música, não consegue juntar dinheiro para pagar aos “passadores”, a “máfia” russa. Esta persegue Sergei num “Renault” suspeito, os outros russos afastam-se de Sergei, sabem-no “marcado”, e este é encontrado, numa madrugada, perto da linha do comboio de Cascais, pernas, braços e dedos partidos. É levado para o hospital, mais tarde para a camarata da Fundação, onde, como referimos, morre envenenado por uma sem-abrigo portuguesa.
O amor entre Rosa e Sergei não se consuma – explícita imagem que a autora-narradora criou para evidenciar ser ainda cedo para se estabelecer uma relação de confiança mútua, aberta e sincera entre Portugal e as suas comunidades imigrantes, seja do Leste europeu, seja de África.
Azenhas do Mar, Sintra, 23 de Outubro de 2010.
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